Um desafio e uma despedida (será?)

O ano de 2011, pra mim, foi um ano tenso. Eu estava no olho do furacão de vários acontecimentos decisivos que estavam para mudar minha vida pra sempre. O primeiro grande problema que eu tive foi ter a idéia de passar um ano viajando de bicicleta pela América do Sul e como explicar isso para minha mãe, minha “chefa”, enfim, como dar a notícia de que Renatinha sumiria no mundo por tanto tempo. A ansiedade me consumiu a ponto de adoecer (sou assim mesmo, fico doente quando coloco minha cabeça no travesseiro e meu coração aperta).

Guardando o segredo da super viagem de minha mãe e depois de ter comunicado a chefa inconsolável, parti para uma viagem em meio à gran savana venezuelana, fiz um trekking de 120km em 08 dias e voltei fisicamente muito mal. Agora não era só o coração que apertava por tanta angústia, mas voltei com um inchaço fora do comum e detectei, após uma consulta com um clínico um provável problemas nos rins.

Além de inchada como um balão, meus joelhos doiam tanto, tanto, tanto que eu mal conseguia articulá-los. Os joelhos estavam grossos como as coxas… pareciam duas morangas e eu mal conseguia enxergar minha patela.

A primeira coisa que fiz depois da viagem foi me matricular no Pilates para resolver o problema dos joelhos. Comecei em março. Também comecei a pegar mais intimidade com a bicicleta, afinal, eu viajaria quase um ano montada numa. E me apaixonei pelas bicicletas! Tanto que tenho uma pequena coleção delas, de tantas cores, formas e especificidades. Cheguei a mandar fazer um quadro sob medida!

Depois que contei tudo sobre a viagem para todos, ainda assim não conseguia deitar para dormir e sentir o coração totalmente leve do jeito que eu gosto. Eu precisava estar saudável para a viagem e, para tanto, tinha que investigar o porquê do piripaque que tive em fevereiro.

Já com os joelhos sem dor e cheia de planos e energia para o pedal, peguei o telefone e marquei a consulta com a nefrologista. Quando levei os resultados para ela, a “fofa” apenas disse: faz de novo esses exames, pois não quero acreditar nesse resultado.

Bem “House”, não? Eu também achei. Quando refiz o exame (mais alguns meses depois…) voltei lá com o exame muito bem feito.  E ela concluiu: vou te pedir uma biópsia. Tudo bem ter que tirar dois pedacinho do rins, mas o gelo na espinha veio quando ela perguntou: você faz atividade física? Sim, eu pedalo. Com qual intensidade? Ah, dou uns giros de 50-60km por aí. Pode parar. Quero você sem bicicleta e me volte aqui com a biopsia feita e mais exames.

O castigo da bike me fez perder vários passeios legais, inclusive um Audax de 200km que o Artur acabou fazendo sem mim. Deixei de fazer trilhas na Mantiqueira com a minha Mountain Bike novinha-novinha que eu mesma montei na oficina do Artur. A Clorofila! Já me imaginava pedalando cada vez melhor e chegando mais longe com este tão romântico e fotogênico meio de transporte.

A viagem de bicicleta de vários meses acabou dando lugar para outros planos. Minha “chefa” virou minha sócia e tive que intercalar períodos de pedal com o trabalho. Tudo bem, ainda estava ótimo. Há uns 10 dias atrás criamos o Pedalamerica, com fotos das bicicletas, nosso roteiro, a idéia e tudo mais.

Ao pegar o resultado dos exames decisivos pela internet, antes de falar com a médica, fiz umas pesquisas na Internet sobre o resultado, consultei uns amigos que entendem do assunto e pensei, com toda a esperança, que nada tinha a ver com fazer atividades físicas intensas. Tanto que me inscrevi para o desafio Audax 135km e, inclusive, fiz uns treinos deliciosos com o Artur e amigos.

Dois dias antes do desafio Audax 135km e a um passo de comprar as passagens para o primeiro trecho da viagem de bicicleta volto ao consultório da médica. Ela e seu estilo “House” me contou sobre o meu problema e sentenciou: nada de bicicleta.

Não tive como, naquela fração de segundos em que ela pronunciou o NÃO a minha 20-milion-question “vou poder fazer a viagem de bicicleta”, não ver passar na minha frente todo o filme com cada detalhe da preparação da viagem, da história da compra do quadro, da foto que tirei da minha bicicleta Latina para colocar no site, do meu companheiro que estava ali do meu lado segurando minha mão, do Audax de Campos do Jordão que eu faria em março… e chorei.

Saí do consultório e chorava compulsivamente agarrada ao Artur. E nada me consolava.

De qualquer modo, eu me despedi do ciclismo de performance no desafio 135km. E pedalei os 135km, em pouco menos de 09 horas, o tempo limite para terminar a prova. Fui audaciosa, mas, conservadora, declarei: é o primeiro e o último.

Eu ainda me sentia molhada no balde de água fria que levei no consultório da nefrologista quando comecei a dar as primeiras pedaladas. Era como se eu pedalasse em ovo.

Depois, com a tática do “Poder do Agora” mandei os problemas do futuro para o futuro e joguei a conversa com a médica no baú do passado. Irresponsavelmente, confesso, pedalei pesado, com força, audaciosa mesmo. Gostava de olhar para minhas pernas numa subida e ver os músculos se ativando. E agora, sem dor no joelho, que delícia que é pedalar em pé e vencer uma subida. Na descida aproveitava para sentir o vento no rosto, recompensa merecida.

Gostei de receber a boa energia dos amigos na prova. Por mais que eles lamentavam perder a companheira de pedal, logo já se empolgavam a me oferecer idéias e soluções. Tente isso, tente aquilo. Tente!

O Artur é tão incorrigivelmente dedicado que já me apresentou alternativas como a bicicleta com assistência elétrica, motores para instalar na bicicleta, tudo para que eu possa continuar ao lado dele e dos amigos pedalantes, sem afrontar a explícita e tachativa recomendação médica.

É claro que não mais vou sentir aquela sensação dos quilômetros finais, quando em tom de cumplicidade eu implorava para minhas pernas cochichando insanamente sob elas: por favor, não parem, já estamos chegando… só mais uns metros, por favor, vamos lá, inspira fundo, expira… olha lá o PC final! Já já vocês descansam…

De outro lado, ainda vou conseguir sentir o ventinho no rosto nas descidonas e, o melhor de tudo, poder bater um bom papo com um amigo e com meu amor no maravilhoso embalo dos pedais, curtindo o ambiente, sem pressa, devagar para pedalar sempre! Meu lema nas subidas não será mais “Só no Girinho”, mas sim: só no motorzinho!

Rompi a barreira dos 100km que há muito tempo estava nos meus planos. Me senti corajosa e vibrei com a medalha e o certificado. Tudo isso foi muito bacana.

Depois de tantos acontecimentos eu fiquei enjoada, angustiado, retraída… tentando digerir tudo. Claro que fico muito contente em ter descoberto tudo agora, precocemente poder fazer o tratamento adequado. Feliz por ter olhos para ver e pernas para andar. Isso tudo é muito positivo.

O problema, meus amigos, é que isso consola as pessoas práticas e racionais, não uma sonhadora romântica como eu…

 

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A Saudade que é Verdade

Viver é aprender… não temos como escapar disso! Pois bem, tanto já se disse (inclusive eu, em minha curtíssima trajetória literária) sobre a saudade e ainda temos muito o que aprender sobre ela. Ela dói, ela pesa, ela sufoca, ela traz lembranças, ela dá tristeza, ela nos faz querer voar para perto de uma pessoa querida, nos faz querer voltar no tempo ou correr em frente para alcançá-lo. Mas, hoje, percebi que a saudade, além de tudo isso, torna-se mais poderosa na medida em que conhecemos mais a pessoa amada e nos habituamos com sua doce presença ao nosso lado (apesar de todos os pesares).

Ano passado meu companheiro Arturo passou 25 dias na Bolivia em julho. Este ano, também. Mas naquela outra ocasião trabalhei muito melhor a ausência do meu amor e, agora, estou simplesmente me descabelando diante do calendário contando os dias para a sua chegada numa angústia presidiária! E eu que tinha a ilusão de que, quanto mais tempo estivesse junto dele, menos sentiria saudade… Tolice pura!

Lembro-me da minha amiga May, que todo ano, mesmo após 10 anos de casada, sentia a mesma dor quando o marido partia para a Suíça trabalhar durante o mês das flores europeu. Lá vinha ela com a carinha inchada no outro dia, depois de deixá-lo no aeroporto. Creio que estou com a mesma cara hoje…

É um bonito e importante aprendizado reconhecer que os anos ao lado da pessoa amada, quando é de verdade e pra valer, tende a potencializar os sentimentos de carinho, união, companheirismo e “precisão” da pessoa ao lado. Todos esses sentimentos tão conectados com a saudade. A bobagem do século é o tal do achar que com os anos essas coisas passam e aí só sobram… sei lá o que dizem que “sobram” (tão feia essa palavra…).

Na mesma angústia que eu está minha amiga Cintia (aliás, cujo marido está com meu namorado na Bolívia há 19 dias!) A Cintia e o Davi têm uma história mais madura que a nossa, pois eles estão juntos há quase 20 anos. E ela suporta essa ausência dele todos os anos. E neste ano especial para eles, a saudade fortalecida brota como marias-sem-vergonhas no jardim. Ele querendo voltar antes, tentando mudar a passagem, ela na contagem regressiva… enfim, coisas lindas do amor! O amor de verdade, com saudade de verdade, mesmo depois de tanto anos.

Imagino as coisas que passam na cabeça desses dois… quantos filmes, cenas, frases, cheiros e sons de tanto anos! Na juventude de minha relação com Arturo já passa tanta durante a saudade, penso como deve ser o turbilhão de emoções que os atropela nesse instante.

Como poeta que sou, não posso deixar de ver beleza e música em tudo isso! Mas, na realidade, os dias, as horas e os minutos para quem tem saudade teimam em arrastar-se e a prolongar-se nessa espera sem fim. E a vida segue prática, objetiva, razoável, medíocre. Sem a pitada de sossego, paz e conforto que nos traz a presença de quem amamos.

No outro lado disso tudo, vejo me acenar, com vigor e com um sorriso no rosto, a felicidade! Como uma deusa mitológica eu a vejo me acompanhando, porque não há nada mais feliz que saber que carregamos um sentimento verdadeiro por alguém, que somos correspondidos e que, com base nesse amor, construímos (ou ainda vamos construir) uma vida repleta de alegrias, sonhos, escolhas, aprendizados, momentos difíceis, realizações, amor e…. saudades!

Dedico esse texto a minha saudosa amiga Cintia Marski, que faz aniversário hoje!

 

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O puro e o purificador

Agora há pouco, depois de sair do banho quente proporcionado pelo chuveiro elétrico aqui de casa, fui até a cozinha e tomei um copo d’água fresca gerado pelo meu super purificador de água Europa. Parei, olhei para o aparelho miúdo de tamanho poder, e refleti sobre essa história da purificação.

Inevitavelmente, lembrei das águas que tomei nos últimos quatro dias, lá dos Andes, especificamente da Cordilheira Real, Bolívia, na região do Condoriri. A água lá é abundante, do gelo que escorre sem cessar. É gelada de doer dedos e gargantas. Para buscá-la é preciso caminhar pelas colinas que descansam a 4600m de altitude. Ofegantes, ajoelhamos diante da fonte e enchemos nossas garrafas. Bebemos a água pura (após um tratamento manual com cloro para evitar possíveis desconfortos intestinais pouco queridos em uma empreitada no altiplano boliviano).

O protetor solar buscou, sinceramente, me proteger dos raios solares, para que minha pele permanecesse pura e livre das manchas, sardas, sulcos, rugas, enfim, das impurezas do malvado astro. Falhou, pois olho no espelho agora e, ao passar meu super tônico purificante, encontro mais rugas, sulcos, sardas e manchas.

Será que eu precisaria de uma dose extra de purificação, pois?

Mas, e se, ao passar o algodão úmido sobre o rosto ressecado, também encontro a história bonita que vivi aos 5400m, ao lado do meu amor eivado de barbas e cabelos e cheiros que os dias trazem e manias que os anos talham. Meu amor também precisaria de purificação? Dose dupla?

Ou seríamos/estaríamos nós realmente puros aos nos entregarmos à natureza e sermos, simplesmente, o que somos, sem recorrermos a purificações artificiais?

Lembro do Leo e sua família, isolados em seu sítio em São Roque, no interior de São Paulo. Criam-se os meninos orientados pelos pais que encontraram UM JEITO de viver puro, e não purificado. Desde a busca pelo alimento puro (os grãos, brotos e vegetais) até pelo zelo na pureza das amizades que preservam, amando e respeitando os amigos, inclusive nós, os ausentes, porque a pureza é assim, de graça. Tal qual a água, o sol, os vegetais, a terra, o sorriso da criança e a força do nosso caminhar.

A purificação que buscamos, portanto, acredito estar dentro de nós, refletida nitidamente em nossas ações e escolhas. O purificador Europa retira as impurezas da água de forma mecânica e imediata, ao passo em que a água buscada na fonte, congelante, tratada manualmente e vagarosamente, traz em si todo o significado de buscar e prepara a água a beber.

Pois é, sem querer querendo, acabei caindo em outra máxima do tio Exupery, quando diz que o sabor da água também está na caminhada até o poço a passos lentos, mãos no bolso… no barulho da roldana, no ruído do balde tocando a água. Diante de todo esse incrível cenário, o “click” do botão do meu purificador Europa ficou absolutamente vazio e sem sentido.

Claro que no nosso dia-a-dia não podemos, a cada copo d’água, dar um pulo até uma fonte mais próxima, lata d’água na cabeça, seguir toda a linha romântica da famosa dupla imortalizada pelo autor francês, mas, a DIFERENÇA está em saber o gosto que tem uma água encantada.

Essa metáfora pode ser aplicada a diversas situações de nosso dia-a-dia, basta sairmos um pouco do piloto-automático, da planinha do Excel, e partir ao encontro da pureza que habita em cada fenômeno da natureza. Como, por exemplo, uma viagem ao agreste! Aprendendo com as montanhas, o sol, a água, o relevo a importância, o valor e, claro, o sabor das pequenas coisas.

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Para Clarice

Patrícia me disse
Num dia que chovia
Que o Ito finalmente
Plantou nela a semente

A moça feliz, em Paris
Iluminada pela cidade
Fez do amor a felicidade
Foi assim que ela quis

Do chocolate esperado
Ou do coco queimado
Passou looonge…
Veio de olhos azulados.

Escolheu seu par escuro
Toda cheia de orgulho
Mas do pai ela só tem a calma
E a irmandade na alma

Da mãe herdou a cor
E todo o meu amor
Seus olhos grandes e profundos
Merecem toda a paz do mundo

É festa junina!
Nasceu a menina!
Há 1 ano Patrícia me disse
Venha conhecer  Clarice!

O bebê esbelto e simpático
Que ri para todo lado
É o fruto do ventre de minha amiga
Ventre abençoado.

É também fruto do Ito
Que também virou amigo
Esses dois bem casados
Exalam o amor idealizado

Tia Ruiva está longe nesse dia
Mas não deixou de fazer poesia
Para a menina mais linda
Filha da linda história da minha amiga.

Com todo amor para Clarice, Pat e Ito.

 
 

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O ponto cego da questão

Certo dia eu conversava com a Patrícia sobre andar de bicicleta nas ruas da cidade e comentei que, após minhas experiências em ser pedestre e ciclista em São Paulo,  quando estou na minha posiçao de motorista do meu automóvel eu simplesmente compreendo o que é estar lá fora, frágil, vagaroso, aguardando o fluxo dos carros para poder seguir adiante. Quando avisto um ciclista do meu lado direito, portanto, é automático olhar para o lado esquerdo, ver se está vindo um carro para, na ausência de outro automóvel, ir para a outra pista e compartilhar a pista com o ciclista. “E se não tem espaço para você e o ciclista?”, perguntou Patrícia na sequência. Respondi: eu aguardo.

Do mesmo modo que, diante de uma faixa de pedestre eu aguardo o pedestre atravessar. Aguardo porque, depois de três anos saindo do Itaim Paulista de carro e me loUcomovendo até Moema (88km por dia), percebi que não adianta ter pressa em São Paulo. Você pode aguardar, pode acelerar, pode gritar, pode buzinar. O seu tempo de deslocamento será sempre o mesmo, dependendo, é claro, do horário que você decide sair de um lugar para chegar no outro.

Depois que me mudei para a Vila Clementino e passei a ir de bicicleta ou a pé para o trabalho, eu só podia olhar com muita pena para as pessoas dentro dos carros e ônibus nas ruas. Quando participei da primeira bicicletada na Av. Paulista e conheci o termo “autoImóvel”, ri da tragicomédia que é o nosso trânsito.

Ouvi na bicicletada algumas estatísiticas sobre acidentes com ciclistas, inclusive mortes, número alarmante em vista do tímido número de ciclistas que pedalam na cidade. Essa semana morreu um ciclista na Av. Sumaré, atropelado por um ônibus. A mídia deu até bastante enfoque ao caso, pois o ciclista, pelo que ouvi, era um empresário conhecido. (Talvez se fosse o Seu Zé na sua gloriosa Barra-Forte indo cumprir seu ofício de pedreiro não dariam tanta importância. Mas isso é outra demência social que pode ser explorada em outro post.)

O motorista do ônibus argumentou que o ciclista estava no “ponto cego” do retrovisor. Por isso, o empresário terminou sua vida embaixo das rodas desse gigante, espaçoso e problemático meio de transporte.

O ponto cego da questão, na verdade, é que as pessoas ainda acreditam piamente que aquela passadinha no farol amarelo, ou aquela ultrapassagem magnífica, ou aquela fina “de mestre” no ciclista, ou aquela guinada rápida para a outra faixa, ou aqueles 80km/hora numa rua residencial, ou aquela fechada num ônibus, enfim, que todos esses malabarismos automobilísticos são capazes de levá-los aos seus destinos com mais rapidez. Eles não percebem que continuam estagnados. Imóveis. Parados. Plantados no mesmo lugar.

Não há avanço, só retrocesso na educação do trânsito em São Paulo, pois essa população sempre muito apressada, não quer admitir que o tempo passa na mesma velocidade para todos. É democrático e coloca todos sob suas asas. Sob suas inexoráveis asas. O tempo do ciclista é o tempo do motorista. É o tempo do motoboy e o da senhorinha que dirige seu carrinho indo às compras. É o meu tempo quando estou atrasada e o tempo da minha amiga que sai de cada com antecedência. Ele passa, e passa rápido, sendo você gentil ou não no trânsito.

A diferença da sua escolha pode te ajudar a se manter calmo, sereno, aceitando o que não se pode mudar. Para o próximo, especialmente os que estão em condição mais vulnerável, como o pedestre e o ciclista, pode representar a vida.

Não estamos sozinhos nessa cidade. Cuidemos um do outro!

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Tudo bem ser diferente!

Minha mãe, que é alfabetizadora (a melhor de todas), costuma ler um livro para seus alunos logo no início do ano que se chama TUDO BEM SER DIFERENTE, do Todd Something. Neste livro, Todd diz de modo encantador que tudo bem se locomover de cadeira de rodas, tudo bem usar óculos, tudo bem ser gordinho, tudo bem ter um cabelo diferente… enfim, uma busca lúdica de tentar espantar o enraizado preconceito das crianças em relação ao que é diferente do “normal”, com super aspas!

Todd esqueceu de mencionar que tudo bem ser uma garota que prefere passar 08 dias tomando chuva em uma caminhada em meio à natureza em vez de passar 08 dias na Flórida, por exemplo. Tudo bem você querer ser fotógrafo a ser um grande e cheio de sucesso administrador de empresas. Tá legal querer ter um café e uma lojinha de artesanatos a ser uma respeitável enfermeira e farmacêutica. Beleza você querer viver num sítio longe de tudo e de todos em vez de ser um físico. Tudo bem!

Minha sobrinha Estela, uma menina acima da média para a idade dela (9 anos), queixou-se com a minha mãe sobre a sensação de se sentir diferente na escola. Diz ela que as meninas de sua sala querem ser estilistas e olham para ela com olhar de descaso quando ela diz que ser ser veterinária. Estela tem personalidade forte, como todo bom leonino que conheço. Sua opinião é defendida bravamente, como leoa que é. Cria interesse por coisas fora de seu habitat natural e se aprofunda de maneira invejável sobre os assuntos pelos quais é apaixonada. Estela há de sofrer a síndrome do patinho feio… como eu.

A síndrome do patinho feio moderna é bem assim. Quantas vezes me sinto assim quando estou em uma roda de amigos, sendo observada com olhar de espanto e indignação quando simplesmente falo do que gosto. E é cansativo ter que buscar justificativas que sempre deixam a desejar para os que ouvem, pois, na realidade, quando se gosta de alguma coisa nem sempre há uma explicação objetiva. Por isso às vezes prefiro calar.

É tão bom estar entre os cisnes! Como foi ontem na casa do Davi e da Cintia, meus novos amigos da montanha.

Estelinha, minha sobrinha, um dia vai encontrar seu bando e se sentir em casa. Quando entrar na faculdade de veterinária irá se deparar com dezenas e dezenas de jovens com o mesmo amor pelos animais. Alguns serão seus amigos, outros não.

Mas há algo também muito especial do título da obra de Todd. A idéia de que tudo bem ser diferente… inclusive dos seus amigos! Em uma entrevista de Eduardo Galeanno ele fala sobre a amizade como uma relação de amor, e o amor sobrevive apesar de se ter ou não afinidade. É justamente nas diferenças que se reconhece a verdadeira amizade. Por isso sou tão amiga da Marcela Nantes, por exemplo, que está tomada pela alegria de decorar seu apartamento com um arquiteto famoso, uma energia que eu jamais dispensaria!!

Portanto, Estelinha, cuide bem de sua amizade com a Naiara, sua amiga futura estilista, pois poderão surgir dos diálogos enviesados entre vocês histórias, conselhos e momentos riquíssimos que te acompanharão a vida toda.

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I need to share!!!

Dona Eleonora nos parou no meio do passeio publico para dizer que tinha 89 anos. Quantos anos voces acham que eu tenho, perguntou ela sorridente. Chutei 80; Artur ficou sobre o muro. 89 anos!! E começou a desembuchar um monólogo sobre filhos que moram longe, netos fruto da mistura do genro japones. E o marido? Ah… Sr. Jose, ex-prefeito de Pindorama foi um marido exemplar. Com olhos rasos d`agua Dona Eleonora enaltecia os 55 anos de casamento sem “1 minuto” de briga, orgulhava-se. O seu andar firme nos surpreendeu quando soubemos da idade, ela caminha todos os dias, de manha e a tarde. Apos esses 5 minutos de conversa Dona Leonora se despediu com votos de felicidade. Seguimos nosso caminho. Nao custava checar com o Artur se ele conhecia a vizinha falante, afinal, o modo como ela nos abordou indicava certa familiariedade. Nao, nao a conhecia. Foi realmente uma sessao “I need to share”, da Dona Leonora.

Vale!

(desculpem-me pela ausencia de assentos, mas eu simplesmente nao consigo digitar no Mac do Artur… e eu TAMBEM estou num estado I NEED TO SHARE sobre Dona Leonora…)

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De Janelas Abertas

Hoje eu decidi abrir as janelas e deixar a brisa entrar com seus coliformes, cheiros e desesperos. Como o movimento que dessaruma tudo, deixei o vento entrar. Abri as janelas e o peito para que se acomode todo o tipo de oxigênio e todo o tipo de gênios. Abri de propósito o coração, escancarado, para receber a luz que emana das pessoas ao meu redor, em vez de simplesmente abafá-la em trevas. Decidi abrir as janelas! Optei hoje em ouvir a brisa, enxergar as respostas para depois jogá-las no liquidificador com minhas perguntas. Decidi destapar os olhos e retirar a fumaça da arrogância que turva meu entendimento do que é simples. Coisas simples como o amor. Como a montanha que caminha até Maomé… coisas simples assim. Abri as janelas para enxergar o microcosmo que me circunda, as poeiras de luz, de sabedoria, de cuidado e carinho. Coloquei os óculos para observá-lo em seus detalhes e deixei de resistir.  Só existe uma conspiração lá fora… e é ao meu favor. O vento está a favor.

bons ventos!

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Uma moral da história por dia

Sempre quis escrever para crianças, mas ainda acho que não tenho maturidade o suficiente para atingi-las. Leio os livros infantis – os bons, claro – e sempre sou lançada para uma teia de reflexões subliminares que me deixam de queixo caído com a habilidade desses autores incríveis capazes de fazer a criança prestar atenção, emocionar-se, rir, gargalhar, indignar-se…

O primeiro livro infantil que li seriamente foi O Pequeno Príncipe, que, como o próprio autor indica logo na orelha, é, na realidade, para adultos. Uma tentativa vã do autor francês, já que toda a magia de O Pequeno Príncipe resume-se num carneiro dentro da caixa, muito útil para o principezinho, mas que não se pode ver.

Vivo um grande dilema na minha vida pessoal sem solução a curto ou médio prazo. Minha mãe não aprova meu namoro com um rapaz 10 anos mais novo. Essa informação chegou a pesar para mim nos primeiros meses de namoro, quando eu andava de mãos dadas com ele de cabeça baixa, com a plena certeza de que todos ao meu redor sabiam de nossa diferença de idade e me condenavam. Hoje, dois anos depois, eu nem me lembro disso. Mas, para minha mãe amada, esse é um dado muito relevante.

Não só para ela, pois, “todos” enxergam que não nascemos um para o outro e só eu não vejo isso, segundo ela.

Agora me vem a reflexão: estariam todos enxergando o carneiro dentro da caixa e só eu, relutante, a enxergar apenas uma caixa de sapatos sem sentido numa folha de papel?

O que prende a criança é o universo da imaginação, sem dúvida, e para atingil-la é preciso investir a fundo em sua inesgotável capacidade de imaginar, criar, desenvolver. Para isso, os autores esgotam seus recursos linguísticos transportando-a para um mundo surreal em meio a fábulas, cenários absurdos, personagens de outro mundo que vivenciam, na maioria das vezes, dilemas do dia-a-dia. Eu entendo isso como um tempero fabuloso a sua rotina, aos seus conflitos mais vulgares, a sua crise mais infame, ao seu problema mais cotidiano, para que sejam digeridos como devem ser as questões de nossa vida, resultando em aprendizado e amadurecimento.

Quando eu pedi aos céus um amor surreal para minha vida real, os anjos ouviram e disseram “Amém”. Ele veio e vivemos hoje uma vida fabulosa, que, apesar disso, muito nos auxilia a traduzir, interpretar, absorver, digerir, compreener os fatos de nosso cotidiano, debater alternativas e encontrar soluções. Uma moral da história por dia, todos os dias. Eis o carneiro dentro da caixa!

Se opto em escrever a minha história com base nos ensinamentos da riquíssima literatura infantil – e não nos romances estilo “Sabrina” – preciso mesmo enxergar tudo com profundidade, respeitando a complexidade de umas coisas e aceitando a simplicidade de outras. Sou avessa a qualquer superficialidade, por isso meus diálogos são longos, meus relacionamentos são intensos, minhas amizades são sólidas, minha família é meu tesouro e meu amor é o meu norte.

Todos os dias escrevo mentalmente uma história com começo, meio e fim sobre o meu dia e tudo o que aprendi com ele e as pessoas que fizeram parte deste aprendizado comigo. Agora há pouco tive uma longa discussão com minha mãe sobre caixas e carneiros. Fizemos as pazes, mas meu corpo ainda dói, uma angústia pesada demais para minha frágil estrutura. A moral da história é que tanto a paz como o amor, para nos trazer a plenitude, devem andar sempre de mãos dadas.

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Saudades do Mundo que Já Acabou

Vários personagens rondarem meus pensamento nos últimos dias, desde terça-feira. Então, desde já preparo o leitor para ler algo atropelado e urgente!

A primeira, a filósofa Márcia Tiburi, em sua entrevista no programa a que ninguém assiste PROVOCAÇÕES, na TV Cultura. Do pouco que entendi do diálogo entre ela e Abujamra – afinal, difícil de acompanhar o raciocínio dos dois – duas frases foram tatuadas na minha mente: “A vida é urgente” e “O mundo já acabou”.

Depois do choque que me causou a segunda frase e da comoção que me causou a primeira, não consegui mais acompanhar a entrevista. Fiquei pensando nesse mundo que já acabou e em nossa tentativa de trazer as coisas para o JÁ, tratando tudo com urgência, sem qualquer critério. É urgente! É pra ontem! Isso faz até me lembrar de minha amiga Patrícia, que dizia um pouco irritada: Gente, urgente é a fome!

É a vida também, minha amiga, pois o mundo já acabou. Esse mundo, essa bola azul que paira sobre essa tão pequenina galáxia, perdiiida na imensidão do universo. Vejam o que Ethevaldo Siqueira escreveu há quase 30 anos atrás sobre o tema:

(…) é um frágil planeta. Mas, ao mesmo tempo, maravilhoso, não acha? É uma pena que todos os Homens não possam ver sua Terra daqui. E pensar na sinfonia grandiosa que já existe, no mar, nas florestas, nas montanhas, nos campos, numa pequena lagoa, no vôo de um pássaro, no canto da baleia, nas cores de uma borboleta, na interdependência de milhões de espécies de seres microscópicos e gigantes. Na sinfonia da ecosfera, tão complexa quão delicada. Talvez, então, os Homens pudessem descobrir que têm uma Terra somente.”

Esse texto, cujo título é “O DEMÔNIO” – senhoras e senhores adivinhem o porquê?? -, foi lido pela minha professora de redação na faculdade de jornalismo e eu tinha apenas 18 aninhos. A professora comentou à época que apesar de ter sido escrito no início da década de 70, ele era atualíssimo. Repliquei os ensinamentos da professora Eliana aos meus alunos no Projeto EDUCAFRO, durante os quatro anos em que lá lecionei redação. Inclusive a parte do atualíssimo… e hoje, é como se ele estivesse sendo escrito por todos nós, que sentimos sobre as nossas costas o peso que carrega nosso frágil planeta.

Isso é bastante urgente…

O segundo personagem foi o Artur, esse incrível ser humano que cruzou meu caminho há seis anos e entrou de vez na minha vida, há ano e meio atrás, pelas portas da perseverança!! No ano passado, como é possível ver 3 posts atrás, comemoramos o DIA MUNDIAL SEM CARRO – 22 DE SETEMBRO numa bela manifestação organizada pelo movimento BICICLETADA. Saímos pela Paulista, fomos até o Centro Velho, subimos a Augusta… a massa crítica pedalando pelas ruas a provocar os motoristas estressados que não admitiam ter que aguardar o desfile das bicicletas para seguir seus “urgentes” caminhos.

Este ano, porém, devido a uma enfermidade nos joelhos, eu não pude participar da manifestação. Em vez disso fui num outro lugar, onde estaria meu terceiro personagem, do qual falarei logo logo. Artur não se conformou e fez questão de me encontrar no metrô Paraíso, no finalzinho da Av. Paulista, e me levar de carona na bicicletada. Andamos pela 23 de maio, túnel Ayrton Senna, Juscelino, pista local da Marginal, subimos a Rebouças e chegamos à Av. Paulista. Puxa vida… não é pra qualquer amor nem qualquer consciência ecológica carregar a companheira de 63kg no cano da bicicleta… e ainda continuar cantando, vibrando com a energia da manifestação.

Que urgência! 

E o Seu Júlio? 83 anos prestando assistência espiritual para as pessoas. Sentadinho naquela cadeira carregando tanta experiência de vida e bons conselhos para oferecer aos outros. Ah, ele só riu de mim e comigo, disse que eu não tenho problema algum, nem preciso me preocupar em disciplinar meus hábitos espirituais com tanto rigor. Basta seguir os conselhos do velho Júlio, que são: só pensar em coisas boas, só fazer críticas construtivas e não ter ansiedade. Óbvio que eu franzi a testa diante deste último conselho e ele sorriu dizendo sem nenhum pingo de rabugice: todo mundo faz essa cara…

Qual a relação entre os três personagens? É que na avalanche que está levando o mundo embora, tantas e tantas e tantas pessoas maravilhosas que enriquecem o mundo com seus pensamentos, sua força de vontade e sua capacidade de doação vão junto. Junto com o gelo, com as matas, com as ararinhas-azuis, com as baleias nos mares do Japão. Claro que vou (tentar) seguir os conselhos do Seu Júlio e não me preocupar tanto com o futuro e, com isso, sofrer por antecipação, já que o presente ainda me dá a chance de estar ao lado dessas pessoas, ter acesso ao que elas estão dispostas a doar.

O mundo não acabou, óbvio que não, foi uma força de expressão da filósofa no intuito de alertar a população sobre a irreversibilidade da situação em que nos encontramos. O mundo está aí para ser vivido com urgência, e a urgência é o presente, e o presente não é pra ontem, não é urgente. Ele é!

Agora enquanto a chuva cai lá fora, sinto saudades do mundo que está indo embora…

(uma rima para fechar e dedicar este texto aos iluminadíssimos personagens deste post)

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