Deixei José lá

Eu não nasci lá, mas por lá cresci esporadicamente. Nas férias. Lá passava poucos dias por ano querendo voltar para São Paulo. Terra cujas maravilhas e saudades só fui descobrir agora, par de anos atrás. Havia uma saudade que ficava, tão pequena quanto eu. Será que as crianças têm menos saudade? Será que cabe menos em seus coraçõezinhos incertos sobre quem eram aquelas pessoas que eu tinha que visitar duas ou três vezes por ano?

Certamente lá mora uma pessoa de quem eu sempre sinto falta. Sentia falta por ela ser minha única avó, de uns 15 anos pra cá, quando perdi a minha vozinha materna. Ela era única e tão especial, tão inteligente, tão pianista, tão negra, tão charmosa, lúcida, cheirosa, religiosa, divertida…enfim, minha avó é tudo. Por ela sinto um amor que me faz chorar a qualquer momento do dia só de lembrar.

Ao lado dela estava José…

De uns tempos pra cá ele deu pra querer estar perto, conversar e perguntar onde eu moro. Também de uns tempos pra cá eu amadureci o suficiente e entendi que o seu amor se materializava de forma diversa da de minha avó. E de uns tempos pra cá… José está mais perto. José tem uma saúde de ferro e sinto muito orgulho dele, por ele ter sido um fazendeiro mal sussedido e por conservar seu moinho de água para fazer a deliciosa aguardente, da qual ele também se orgulha. Ele se safou de uma grave enfermidade tempos atrás e, hoje, o que lhe aflige é a quase cegueira que enevoa sua visão, sem a qual ele não pode dirigir, ler o jornal, assistir ao jornal, cuidar do moinho, ir para a fazenda… e ele senta na rede e olha para as telhas encardidas da varanda, e olha o céu sem detalhes, apenas azul, e balança de dia….de tarde…até o cair da noite. E vai… volta… pra onde vai José?

E as 24 horas do dia, e os 7 dias da semana, e os 30 dias do mês, todos os dias do ano, todos os dias até o resto de sua vida… indo e voltando no balangar da rede, sem quase ver o que se passa ao redor, de tão atuante comentarista político nas ruas de Bananal, hoje não mais consegue  adoçar o seu café.

Aí, lógico, eu penso no que é uma vida sem propósito. Mas, de outro lado, o que é a vida, o finzinho dela, quando a natureza nos tira a ferramenta que nos movimenta por ela própria?

Já pensou?

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Sobre ruivaah

Apaixonada por livros, fotos, viagens, montanhas, bicicleta, riachos, familia, amigos e animais! Apaixonada pelo sol e pela chuva.
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4 respostas para Deixei José lá

  1. ppcroitor disse:

    chorandooo…poesia boa e pura. amei! como te amo, e amo a Dorinha, o José, a Verinha, o Manolo, Bananal…ô ruiva, senti até o perfume do amor…lindo, lindo!

  2. Ricardinho disse:

    sem palavras. se mostrar isso para a vovó, ela ficará com um orgulho “danado”!! kisses.

  3. Ruiva disse:

    fofos fofos fofos!

  4. Davi Marski disse:

    O tempo passa e o nosso fim também vai chegar.
    Espero que os últimos momentos do seu avô tenham sido sem muita angústia e sem dor. Mesmo nas suas horas finais havia um certo brilho nos olhos, um pouco de medo que ele demonstrava ao pegar firme nas mãos da sua cuidadora e a voz imagino que tentava transparecer força e coragem.
    Agora que “José” se foi, resta apenas a família…

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