Coisas que cutucam o coração

Ele tinha um autêntico nome de palhaço. Nada do tipo sofisticado como Cisar Park, Tábata ou Madmoiselle Blanche. Era simplesmente Cutuca.
Quando cheguei naquela festinha de Dia das Crianças, para crianças maisqueespeciais, e me deparei com um palhaço profissional, desses de rua, que pintam o rosto, usam peruca e chapéu colorido, fiquei completamente tímida. Afinal, eu sou uma amadora das mais amadoras e, na verdade, sou clown, não sou palhaça. Meu negócio é o entretenimento pontual, direto, personalizado, criança a criança… não sou do palco e nunca estive num para fazer palhaçada. Mas Cutuca me convenceu a ser sua assistente de palco e fizemos um show incrível.
A simplicidade de Cutuca, as palhaçadas mais manjadas, as brincadeiras absolutamente sem graça, óbvias, quase patéticas foi o que arrancou o riso escancarado daquelas crianças.
Eu, com a minha super-técnica clown, sofisticada, fantoches, mil recurso lúdicos, cientificamente estudados também contribuí para a tarde animada da molecada. Mas Cutuca…
As mágicas daquelas que se compram encaixotadas fizeram a turminha deixar de piscar, congelados, embasbacados, boquiabertos, maravilhados com as artimanhas de Cutuca. Eu, como assistente de palco, de início me achei pagando o maior dos micos ao ver aquele palhaço decadente arrancando lingeries gigantes de dentro da minha roupa e tendo que levar a sério aquele espetáculo, mais uma vez, patético. Mas o zunir dos risos da criançada mudou todo o cenário. Logo no primeiro número, sucesso total! Risos, gargalhadas, mais risos… lá havia crianças que não riam há mais de dias. E riram muito com as brincadeiras de Cutuca.
Entrei no clima e já estava feliz com a minha função. Fiquei à vontade no palco, interagi, compus o show e foi maravilhoso.
Confesso que nunca tinha ficado tão emocionada com a mágica do pombo de dentro da cartola… porque, honestamente, não sabia mesmo, mesmo ali pertinho, de onde o pássaro encardido tinha saído. E até eu achei o máximo ver o bichinho alçar seu vôo assustado, sob o aplauso encantado daquelas pessoinhas para as quais tudo é surpresa, tudo é incrível.
Ao final, vi um senhor magro, de traje simples demais, um rosto desesperançoso, cabelos grisalhos, olhar e ombros caídos, abandonar o local. Antes de ir, no entanto, ele veio até mim e agradeceu pela ajuda e soltou um “você leva jeito” que me encheu de orgulho. Ele não conhecia a terminologia clown e nem sabia por que eu não pintava o rosto. Mas achou que, mesmo assim, eu poderia dar para a coisa.
E eu reconheci o valor de Cutuca e o aplaudi de pé.

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Sobre ruivaah

Apaixonada por livros, fotos, viagens, montanhas, bicicleta, riachos, familia, amigos e animais! Apaixonada pelo sol e pela chuva.
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Uma resposta para Coisas que cutucam o coração

  1. daniela miguel de sousa disse:

    esse palhaço cutuca mesmo

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