Reafirmando aquele juramento (para minha prima Carla)

Dia difícil no Pronto-Socorro. Pessoas gritando de dor, crianças vomitando pela sala toda, mães agoniadas, filhas nervosas, doentes impacientes… todas essas pessoas, exceto aquelas que chegavam em estado grave, ficaram horas por ali sem ver a cara da estrela daquele circo. Cadê o médico? Sempre que estive em plantões do PS da Beneficência nunca vi aquilo. Sempre costumamos esperar por 15 ou 20 minutos, no máximo. Mas naquela quarta-feira… Depois de 1 hora e 15, enfim, saiu de lá de dentro um senhor baixo, médio grisalho, óculos modernos, cabelos lisos como de japonês. Teria ele entre 45 e 50 anos. Chamou um nome que não era o da minha mãe. Tudo bem, eu até que estava calma. 10 minutos depois, lá vem ele de volta. Vera Conceição!! Atravessamos o corredor repleto de doentes e acompanhantes que adoecem também um pouco com todo aquele clima de doentes. Entramos na sala deserta, ele já foi preenchendo todas as fichas, símbolos da burocracia, perguntou como minha mãe estava, preenchia mais papéis, e eu só de olho. Pediu pra eu colocar minha mãe sentada na cama e, num tom de ordem cirúrgica, pediu para eu buscar uma cadeira de rodas. A mama não podia andar, estava com vertigem. O que não vem ao caso. O médico é o personagem. Nunca suportei os médicos de pronto-socorro… nem os médicos em geral. A despeito desta ser uma classe admirada e respeitada por todos, o fato de uma pessoa me dizer que é médica nunca me iluminou os olhos…ao contrário, me fazia olhar com ar desconfiado… sei lá, não os respeito. Puro preconceito. Então, passamos o dia todo lá, aguardando resultado de exames, indo pra lá e pra cá, dormindo nas cadeiras, cuidandos das papeladas – sempre a burocracia! – vai e volta, mais exames, vem outro médico, diz outra coisa, deixou minha mama lá. Presa. Bem no final do dia, lá estava ele, indo pra lá e pra cá, o médico com cabelos grisalhos de japonês e óculos fashion, repetindo a mesma cena de 9 horas atrás, abrindo a porta e chamando mais um nome, sala deserta, papéis, pedidos de exame, pedidos de cadeira, diagnósticos. No meio da consulta da mama, eu me lembro, fiz um comentário tendencioso do tipo “que demora, não?”, que foi rebatido com uma justificativa infalível: estamos em apenas dois plantonistas (três não vieram) e acabamos de ter uma parada. Uma parada? Estranho sentir a morte tão perto… A morte que não veio. Foi adiada por algumas horas, dias…. quem sabe anos? Talvez a pessoa de meia-idade que tenha “parado” e que, graças à atuação do cabelo-japones voltou à vida… poderá ver centenas e centenas de luares lindos a mais, de chuvas de verão, netos crescerem, cometas, eclipses. E mais no final do dia ainda, quando a mama já estava num quarto aguardando as papeladas da internação, lá vem ele. Exausto e sorrindo. Perguntou como a mama estava e, neste momento, talvez, aquele sentimento que o moveu a ser médico se renovou em seu peito, encheu o “doutor” de carisma, de atenção ao paciente, de vontade, de esperança, de dedicação. E disse um simpático e irônico “bem vinda dona Vera!”. E ele revisitou seu juramento. Bem vindo de novo, doutor!

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Sobre ruivaah

Apaixonada por livros, fotos, viagens, montanhas, bicicleta, riachos, familia, amigos e animais! Apaixonada pelo sol e pela chuva.
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2 respostas para Reafirmando aquele juramento (para minha prima Carla)

  1. Carlinha disse:

    Rêzinha,
    Realmente durante um dia duro de trabalho, com tanto sofrimento e tristeza, aquela vontade imensa de servir, ajudar, se perdem e tudo o que queremos é ir para casa e ter paz! Mas durante pequenos momentos como uma mãe que dá a luz a seu filho, um filho que segura a mão de seu pai enfermo apenas para compartilhar, ou a sinceridade de um sorriso infantil… faz a verdade vir á tona e tudo aquilo que nos pertubava, nos dá mais força e alegria de ser apenas médico.
    Beijos e acredite, muitos sempre fazem o possível!!!

  2. Ruiva disse:

    Carlinha, obrigada por enriquecer a crônica com este testemunho. Sempre tive a plena certeza de que vc seria diferenciada, pois, o que te move, é mesmo o coração (e não ganhar $$$ ou o status de andar de jaleco por aí). Vc é de ouro!! E pode reservar meu convite para o baile.
    beijos de infinito amor!
    Re

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