Capira-pira-pora

Eu tive a feliz idéia, nestas férias, de fazer a famosa romaria montada de Bananal até o santuário de Aparecida, o que equivale a 300 quilômetros em cima de um cavalo. No meu caso, sacrifiquei minha égua bebe, de apenas três anos e meio. Todos me olhavam com olhares condenatórios… Só três anos?? A Glória foi e voltou “sobrando”, na gíria sertaneja quando o cavalo ainda tem fôlego para mais alguns quilômetros… Metros… ou centímetros.

Foi uma cavalgada de fé. Levei alguns pedidos no bolso para fazer pessoalmente aos pés da imagem de Nossa Senhora Aparecida e, durante todo o caminho, rezávamos muito e nos emocionávamos por estarmos nesta empreitada… nem tanto por nós, mas pela dor que nossos animais sentiam, pelo cansaço. Em todas as preces, de manhã e à noite, pedíamos a ela mesma proteção em dobro para nossos companheiros de romaria.

Eu também já cheguei a maldizer os romeiros montados, alegando que eles deveriam pagar suas promessas ou levar seus pedidos a pé, de bicicleta, de moto, de joelhos… mas não colocar na jogada outro ser vivo, e ainda irracional, para o qual nenhuma diferença fará se o final da jornada ira resultar na Basílica de Nossa Senhora, num templo budista, num terreiro de Umbanda, na Igreja Universal do Reino de Deus. Para eles é um sofrimento sem tamanho e ponto final.

Depois deste enredo inicial fica difícil de cumprir o que me dispus a fazer nesta crônica… eu queria, justamente, justificar a presença dos magníficos quadrúpedes que acompanham os homens, há séculos, em suas “roubadas”. A relação entre o peão e o cavalo, a dor em ver seu o lombo machucado, o desespero diante de uma palpitação diferente, a alegria ao vê-los urinar (aos leigos, este é um sinal de boa saúde do cavalo) e a inconsolável dor da morte do parceiro, no último dia da Romaria. Teve de tudo isso por lá.

Eu, particularmente, chegava a salivar ao ver um campo verdejante, chorei mais de uma vez em uma prece sincera, de todo o coração, diante do lombo machucado da minha égua. Tinha dia em que andávamos o dia inteiro, 11 horas em cima do animal, coxas e ancas assadas, bumbuns calejados, coluna torta, ombro travado, tornozelo atrofiado, enfim… também sentíamos o pesar da viagem.

Quando chegávamos ao pouso, a anti-primeira coisa a fazer era levá-los ate a água e, concomitantemente, soltar a barrigueira e a cilha. Na seqüência, tirar o freio, acariciá-los, escová-los, dar de comer, lavá-los, vê-los comer, torcer pela urinada, ficar ao lado vendo cada reação, o que eles comem, o que desprezam, como respiram, o jeito que te olham, avaliar os estragos, remediar os ferimentos, ficar com eles durante o tempo que for necessário.

Ao me ver nesse estado, ou talvez quando molhei com láagrimas o lombo da minha égua, sentia-me uma romeira e me enchia de paz, ao mesmo tempo em que uma aflição cristã me tomava. Eu falava com a Glória repetindo “nós vamos conseguir”. Dentro desta frase estava toda a minha fé e devoção à Nossa Senhora e também a minha convicção científica de que um cavalo é forte o suficiente para percorrer esta distância, agüentar o meu peso… passava para o animal minha fé e razão, assim como o sentido do deslocamento Bananal-Aparecida, que não era em vão, à toa, sem porque, a esmo.O olhar dela pra mim – e ai entra a poesia – desenhava compreensão e uma resposta “claro que vamos conseguir”.

E por isso, depois da reza matinal e de toda a toalete e desjejum da égua-bebe, seguíamos juntas, uma completando a outra, sem que houvesse ali exploração, mau trato e, principalmente, não havia um propósito vazio. Ao contrário, sob ela estava uma jovem cheia de amor e de esperanças, que não pesaram em nada, senão amenizaram, a carga da minha Glória.

escrita em 22 de julho de 2006 para minha vó Dora e meu vô José, ambos agraciados pelas bênçãos de Nossa Senhora

Anúncios

Sobre ruivaah

Apaixonada por livros, fotos, viagens, montanhas, bicicleta, riachos, familia, amigos e animais! Apaixonada pelo sol e pela chuva.
Esse post foi publicado em Uncategorized. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s