Papai motoboy

É uma profissão ingrata por diversos motivos. Em louvor ao preconceito grau máximo, quase um pré-requisito para ter tal função, o rapaz deve ser grosseiro, mal educado, pouco inteligente, indelicado, inconsequente, não cumpridor de regras em geral… enfim, esta é a idéia que fazemos do motoboy.

E há dentre os aspectos objetivos o fato de ser atividade de alto risco. Andar entre os carros, alta velocidade, pequeno espaço, pressa, documentos, prazos, motoristas desligados, chuva, visibilidade ultra prejudicada. Todos os dias um combate contra a Sra. Morte, ou o Sr. Hospital, a Sra. Delegacia, o Sr. B.O.

Por que, então, os jovens escolhem ser motoboy? Certamente, como já comentado em texto anterior, esta não está entre as profissões glamourosas presentes nos livrinhos “O que você quer ser quando crescer?” por aí.  Então… por quê?

Geralmente, analisando o perfil da maioria do rapazes que exercem este papel nesta sociedade maluca, vêm eles da classe baixa, grau de instrução baixo, sustentam a família e também seus luxos de consumo próprio, moram nas periferias, não tiveram educação de fino trato em casa. Outra parcela, certamente, está nessa carreira como meio para se chegar num fim mais elevado, estudar, pagar faculdade, investir em seu desenvolvimento intelectual, quem sabe até pagar um cursinho de inglês?

Outro dado que permeia a classe é a idade dos moços, geralmente têm entre 18 e 30 anos. Estão por aí transitando em busca de algo melhor, ou de algo estável, até sustentável, eu diria.

Ontem, por acaso, quando eu estava numa pizzaria aguardando minhas esfihas, vi um deles entrando, com seus trajes de chuva, de capacete. Quando retirou este último equipamento, no entanto, uma supresa. Vi um senhor, que já tinha ultrapassado a fronteira dos 50 anos.

Era alto, alvo, forte e ostentava um bigode que me lembrou os gaúchos da época da Guerra dos Farrapos. Em sua humildade, retirou o dinheiro amassado dos bolsos, inclusive as moedas, e entregou à moça-caixa da pizzaria, que conferiu com olhar inquisidor as notas úmidas e consentiu que o Sr. motoboy se retirasse com um único balagar de cabeça para frente, e fez que ele voltasse a sua condição de entregador de pizza, na calçada, encostado na parece, um pé apoiado na parede, acendeu um cigarro.

Como ele não se enquadra no perfil acima, pensei que, talvez, ele pudesse já ter uma familia, ter tido outros empregos, estudado, e até ter feito inglês. Também achei que ele já tivesse ajudado a família e cuidado da sua vaidade consumista no passado. E agora, parece que corre atrás de tudo de novo…

De outro lado, é bonito ver a coragem das pessoas numa empreitada dessas a essa altura da vida. A garra, a humildade, a força. Pessoa que merece a admiração das outras pessoas pela virtude de começar tudo de novo. Porém agora, quem sabe, ele esteja trabalhando pelos sonhos dos outros, outros personagens que, provavelmente, pelo esforço e exemplo do papai motoboy, devam almejar e conseguir atuar bem distantes dos corredores nas avenidas paulistanas.

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Sobre ruivaah

Apaixonada por livros, fotos, viagens, montanhas, bicicleta, riachos, familia, amigos e animais! Apaixonada pelo sol e pela chuva.
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2 respostas para Papai motoboy

  1. Pretzel disse:

    Sehr gut!

  2. ppcroitor disse:

    ruiva, assiste “12 trabalhos”, fala sobre o universo dos motoboys. bem mais doces e meigos que eu poderia imaginar quando eles passam erguendo o braço com fúria ou quando me chamam de “dona maria”. beijos

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