Os jardins do meu escritório

Trabalho num escritório, que corre atrás de dinheiro como os outros. Isso coloca em cheque tantos valores, pesos, medidas.. . e aí nesse meio vemos pessoas atropeladas, e com as pessoas, os sonhos.

Lá havia um jardineiro, chamado Ronaldo. Olhar azul tranquilo que não passava pra quem mirava nada de mau. Era um camarada retado lá do nordeste, acho que da Paraíba. Sorria sincero e gostoso para nós, a despeito da timidez que o controlava, de vez em quando.

Outras vezes tagarelava e contava histórias, crônicas do seu dia-a-dia movimentado na periferia do lado sul de São Paulo. A tia atirou no marido que saiu com a vizinha da prima da con-cunhada. Coisas assim. E falava da disciplina que aplicava em casa, controlando com réduas curtas as filhas. E as saudades do filho que ficou com a mãe, com a qual não conseguiu viver e se separou. Enchia nossos ouvidos dessas histórias, trágicas ou cômicas, quando tínhamos a sorte de pegá-lo na hora do café da manhã.

O que mais encantava a todos, no entanto, era o carinho com o qual ele cuidava do jardim. Arranjado numa casa estilo neo clássica, o escritório sempre privilegiou o jardim e, com a ajuda do Ronaldo, mantinha-o lindo, aparado, colorido, uniforme, harmônico, florido, vivo.

De repente, por conta de uma “reestruturação no pessoal”, Ronaldo foi deliberadamente demitido. Era funcionário, provavelmente gerava encargos para o escritório, que preferiu mandá-lo embora e contratar uma super empresa de limpeza e jardinagem, terceirizar o trabalho, sair no lucro!

Ele chorou com uma criança. Olhava ao redor, para o prédio que cuidou durante anos, as flores que plantou, as árvores que podou, a terra que revolveu com as próprias mãos, e chorava, descontroladamente. Os amigos, todos eles – e não eram poucos, claro – desceram até ele e desejaram sorte, era tudo o que podiam fazer. Diziam com mágoa que ele encontraria um lugar melhor, bem melhor, um lugar que realmente o merecesse.

Com sua sacolinha de mercado nas mãos, onde tentava organizar seus pertences, cruzou os portões do escritório e, ainda em lágrimas, olhou para trás mais uma vez. Lá dentro, nós todos tínhamos olhos úmidos e corações apertados.

Esses dias, depois de muito tempo, pensei nele. Estava sentada, olhando para os jardins, e os percebi mal cuidados, sem flores, desalinhados, podados de qualquer jeito e também não podados, sem vida alguma. Lembrei, inclusive, do seu “hospital” de plantinhas que depois de serem tão displicentemente abandonadas por nós, sem água, eram recuperadas por ele, que as regava com amor, cercando-as de carinhos.

Livramo-nos do Ronaldo para contratar uma “empresa cuidadora de tudo”. Mas os jardins, nunca mais foram os mesmos. E eu apenas gostaria de entender a lógica dessa prática tipicamente do mundo global. Trocamos pessoas por outras pessoas, só porque essas últimas são gerenciadas por uma pessoa sem semblante, sem coraçao ou alma. Apenas jurídica. Sem importar que estas características faltantes, sejam imprescindíveis para desenvolver certas tarefas, como cuidar de plantar e flores.

Simplesmente não entendo.

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Sobre ruivaah

Apaixonada por livros, fotos, viagens, montanhas, bicicleta, riachos, familia, amigos e animais! Apaixonada pelo sol e pela chuva.
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8 respostas para Os jardins do meu escritório

  1. pp croitor disse:

    fiquei depre. nao sabia que o ronaldinho tinha sido mandado embora…lamentável. eu tambem não entendo, ruiva.

  2. Verena disse:

    Rê. Li sua crônica com um aperto enorme no coração… aperto este que sempre aparece quando penso no Ronaldo. Lembro como se fosse hoje o dia em que ele foi contratado: ele estava tão feliz, radiante… Tinha sido ajudante de pedreiro durante muito tempo, e finalmente conseguiu um bom emprego, de carteira assinada, para dar uma vida melhor à família. Ainda bem que eu não estava lá para ver a sua partida. Acho que eu não aguentaria. A última notícia que tive foi de que ele estava vendendo garrafinhas de água num farol. Que desperdício absurdo pra alguém que é capaz de dar tanto amor, coisa infelizmente cada vez mais rara no mundo de hoje. Não me conformo. Mas, como me disseram na época, “a vida é assim”… Só nos resta enxergar a ganância do ser humano, e combatê-la com unhas e dentes, pra tentar tornar este mundo um pouco mais generoso.

  3. flavio noatroberto disse:

    Uau! Cada vez melhor, hein! Sutil e comovente! Abraços, apedar da sua falta de sensibilidade às vezes… Mas compreensível!!!

    flavio

  4. Si disse:

    Quase chorei qdo li…
    Espero que Deus olhe por nosso querido Ronaldo e que lhe dê a oportunidade de trabalhar em um lugar especial, onde possa florir o jardim da vida de outras pessoas, assim como fez conosco!

  5. carlos gallo disse:

    Q coisa, hein!

  6. Pretzel disse:

    Resultado de uma sociedade Cogumelo. Parabens pelo texto!

  7. Marcelo disse:

    Show de bola esse texto em Re, a maneira como colocou a coisa foi sensacional. Esse mundo capitalista so da mais raiva cada vez que vemos isso.
    Bjs

  8. Ricardinho disse:

    na boa…. to com um aperto no coração…..
    fora as fofocas que o parayba tinha, sempre da melhor qualidade….
    saudades mano parayba! onde estiver…

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