São Mateus

“Deixem vir a mim as crianças e não as impeçam; pois o Reino dos céus pertence aos que são semelhantes a elas.” (Mateus, 19, 13)

Ao começar esta crônica mais que apaixonada vieram-me dois narizes-de-cera diferentes. A citação bíblica escolhida e também a frase do principezinho de Exupery, que dizia mais ou menos assim: conheci um homem que só se preocupava em fazer contar, nunca tinha cheirado uma flor. Afinal, não era um homem, era um cogumelo.

Escolhi o trecho fofo de Mateus, pois, o texto aqui faz expressa homenagem ao bairro São Mateus e também a um garotinho com este nome que anda operando milagres por aí.

Foi criada no bairro de São Mateus minha colega de sala Andreia. Ela é bonita e de longe percebe-se que é pessoa de garra, ainda mais quando a avistamos nos corredores da faculdade, de braços dados com os dois filhos, que a acompanham às aulas desde o quarto semestre (já estamos no sétimo).

Alguns professores torcem o nariz quando ouvem o inevitável zumbido do menor, o Kauê, de cinco anos, que no silêncio retirado de suas brincadeiras solitárias, emite vez ou outra prosopopéias típicas dos meninos simuladores de grandes epopéias heróicas com seus bonecos de plástico. Outros mestres os abraçam como alunos especiais, e os respeitam nessa qualidade.

Andreia, no entanto, está sempre dividida entre o teor da aula e os filhos. Mãe zelosa, ora afaga o menor, ora suporta o peso do garotão Kevin de nove anos que, apesar de entender melhor as coisas e apresentar comportamento admirável, por vezes sente falta da atenção da mãe e é socorrido num gostoso cafuné com colo.

Outro dia ela fez uma prova final com Kauê no colo. As pessoas com as quais ela poderia contar para evitar esta situação moram em São Mateus, longe da Liberdade onde estudamos e mora Andreia. Preferiu expor seus filhos a este sacrifício do que exclui-los do seu dia-a-dia.

E para nós, em sala de aula, tudo fica mais gostoso. Jogamos bola no intervalo, brincamos de peteca, forca, jogo da velha, tudo para entreter os pequeninos. Viramos todos crianças!

Sobre o menino Mateus, voltemos ao trecho do principezinho. Afinal, ele mesmo é um príncipe, cercado de amor, cuidados, tudo de bom. Família unida, escolinha, festinha de aniversário. Nunca o vi, apenas ouço falar dele. Mas sei das coisas que ele fez e faz.

Tal qual na história do escritor francês, ele dobrou o homem Cogumelo, fazendo-o parar de fazer tantas contas e adentrar no mundo mágico daqueles que param para cheirar as flores, contar histórias, sorrir para qualquer coisa, fazer loucuras. O tal mundo da felicidade.

500 milhões de guizos que riem foram – ou melhor, são! – o presente que ele oferta ao papai Marcelo todos os dias. Ao abrir um sorriso desinteressado, honesto, sincero, repleto de um amor único e incondicional, sem querer nada em troca, alegria de olhar mesmo, coisa rara, a alegria do simples olhar. Olhar e sorrir de volta, espontaneamente, prima característica do amor.

Por isso que Jesus disse, citado por Mateus: “Cuidado para não desprezarem um só destes pequeninos!”

Fizerem bem meus dois idólos de hoje, Andreia e Marcelo, por apertarem junto ao peito estas perolazinhas de gente, que nada mais fazem senão encher nossas vidas e dia-a-dia de alegria. Obrigada por aceitarem mais estes principes no mundo.

E para finalizar, é sempre bom lembrar que cada criança que nasce, sinaliza a esperança de Deus na humanidade.

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Sobre ruivaah

Apaixonada por livros, fotos, viagens, montanhas, bicicleta, riachos, familia, amigos e animais! Apaixonada pelo sol e pela chuva.
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3 respostas para São Mateus

  1. carlos gallo disse:

    Referências que trazem em si tarefas de renascer em nós esperança. Creio nisso.

  2. flavio notaroberto disse:

    Uma dia talvez entendamos de quanto somos formados de passado! E o prazer de uma criança aos nossos olhos é a encarnação deste passado. Olhe cá. Não chore! Me deu vontade de dizer não chore! E só para lembrar o mestre dos mestres: “Jesus chorou!”

  3. Christina disse:

    Essa história, me levou para 22 anos atrás, qdo também eu ia as aulas da faculdade com o meu pequeno nos braços, desde a tenra idade de 1 mês, e ele se chama Mateus!

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