“E essas feridas da vida, Margarida…”

Maranhão

Veja você, meu caro leitor, como é a vida. A despeito do aumento do álcool, da visita do Bush a São Paulo, do aquecimento global, Margarida não vai pra casa há oito anos. Moradora da cidade maravilhosa, lá do lado não tão esplendoroso assim, ela ouve tanta música, vê tanta gente rindo à toa olhando aquele mar azul, o dourado da manhã límpida, a meia-luz calmante do fim de tarde, todos enaltecendo e compondo a beleza do Rio de Janeiro. Ela, por sua vez, sonha com a singela boniteza do sertão do Maranhão, onde lá nos confis habita uma senhorinha magra, de pele judiada, morena como o Brasil lá de cima, cercada de filhos maiores, netos menores, marido trabalhador, mas que não ganha o suficiente para bem alimentar a tropa toda.Margarida migrou para o sul e caiu na cidade dos sonhos, nossa menina dos olhos, princesinha do mar. E lá, foi parar no lugar ainda mais limpo, cheiroso, glamouroso, rico e esnobe desta terra que é esnobe por natureza, tamanha a estupidez de sua arquitetura incontestavelmente divina. Trabalhando em um restaurante japones no Leblon, fala com sotaque nordestino o nome dos pratos orientais esquisitos com fluência admirável. Mas mais adimirável é a permanência da sonoridade de sua fala que nasceu com ela e, mesmo com a distância, o tempo, convivendo com o irresistível sotaque carioca, perdura inabalável.Uma colega minha, que também é do Maranhão, veio com o mesmo objetivo de Margarida, curar as feridas da vida, amarga vida. Tão viçoso era o brilho de seu olhar no começo do ano, quando ela em regozijo disse que tinha passado 30 dias no Maranhão. Eu, que tive a sorte e felicidade de conhecer este estado, sorri de volta e entendi a alegria dela, realmente os Lençóis são lindos, o centro histórico de São Luiz uma beleza… Não! Não, Renata, não foi pra lá que eu fui. Fui ver minha família, no interior, no sertão. Dois anos sem ver a família, obviamente não foram os encantos naturais daquele lugar que trouxeram tanta alegria ao rosto e coração dessa minha nova colega. A viagem de ônibus é penosa, leva tempo e bastante dinheiro. A de avião, leva mais dinheiro ainda. Inviabiliza a alegria de Margarida. As conversas ao telefone são cotidianas, rotineiras, os mesmos oi-tudo-bem-fica-com-Deus de sempre. E rápidas. As tarifas também não têm graça. Por isso, talvez, Vital Farias cantou à Margarida com tristeza “arco-íris já mudou de cor, uma rosa nunca mais desabrochou“.

Hoje é o dia internacional da mulher, marcado pela inauguração da mulher no histórico de reivindicações por melhores condições de trabalho, em 1857. Quase um século e meio depois e Margarida, retirada em sua baixa escolaridade e pouca instrução, aceita calada o fato de ter que se separar da família para trabalhar, ganhar pouco, falar japonês, e olhar para a beleza do Rio de Janeiro sem enxergar muita graça naquilo tudo. Olhando o céu e o mar tão profundos quanto sua saudade, não vê possibilidades de voltar, nem de ir só para abraçar de novo a mãezinha.

Margarida veio curar as feridas e abriu outras. Em seu balanço, o saldo ainda é positivo. O dinheiro enviado todo mês faz com que os pais trabalhem menos, os irmãozinhos estudem mais, em meio ao calor insuportável do Maranhão, por mais que ela trabalhe mais aqui, no calor não menos infernal que o do Rio de Janeiro. E faz isso pensando nos seus… Por isso, talvez, conclui Vital Farias: “Pra você gostar de mim”!

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Sobre ruivaah

Apaixonada por livros, fotos, viagens, montanhas, bicicleta, riachos, familia, amigos e animais! Apaixonada pelo sol e pela chuva.
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3 respostas para “E essas feridas da vida, Margarida…”

  1. Ola, Renata. Estou já um tanto inquieto esperando mais uma postagem sua… Abraços!!!

  2. Ola, Renata. Estou já um tanto inquieto esperando mais uma postagem sua… Abraços!!!

  3. Minha amiga, escrevi um texto para uma conhecida minha e gostaria de você – como mulher – lesse. É para você também e para todas as mulheres deste mundo… Vou pedir para a nossa amiga em comum blogueira para ler também…

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