Joaquim e o universo

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É fantástico o universo. Imenso… vasto… finito, mas em expansão. Gigante, sem dúvida, muito mais do que podemos imaginar. Para exercitar essa tarefa, no entanto, gosto de ler aquelas revistas que falam que o sol perto da estrela X é um piolho, e que a estrela X, perto do asteróide Y, é uma pulga, e assim por diante, levando-nos a triste constatação que somos, se o sol for um piolho, as moléculas que formam as pulgas do sol. É duro. Somos pequeninos, ínfimos.
Joaquim é ainda menor que o ser humano médio, nasceu anão. As pessoas com essa característica não chegam a 1 metro, acho, são bem baixinhas mesmo. Com esse cidadão, no entanto, vivo de perto, e já notei que ele passa pouco da minha cintura. Cruzo com eles nos elevadores e corredores na universidade onde estudo. Carrancudo, na esmagadora maioria das vezes, mas suscetível ao riso, se provocado. E aí manda um risão simpático. Ele trabalha na técnica, leva retroprojetor, datashow, computadores para todo lado.
Gosto do Joaquim, pois acho que é um cara valente, corajoso. Cresci aqui na rua da casa da minha mãe vendo uma senhora anãzinha passar por aqui de vez em quando e tinha medo dela. Achava estranho e lembrava dos mocinhos da Fábrica de Chocolates, azuis, roxos, verdes. Tinha medo.
E as pessoas, más, contam histórias e histórias de anões que não morrem, e tantas outras lendas envolvendo essas pessoas como se tivessem tal direito. Como fazem com os negros, portugueses, fanhos, gagos, loiras, velhos, gordos, carecas, baianos.
Com o tempo, tive a oportunidade de conviver com pessoas que trazem essas peculiaridades, e hoje uma das minhas melhores amigas é portuguesa, meu namorado é baiano, eu sou 50% negra, e tenho Joaquim para me ajudar com as coisas técnicas lá na faculdade. A convivência faz com que nasça o respeito às pessoas especiais, com características especiais, algumas vezes discriminadas, como esse ilustre funcionário da instituição onde estudo.
Lembro-me da subida de Aristóteles. Dizia ele, mais ou menos assim: a grande subida até a felicidade é formada de vários degraus. A aceitação está acima do conhecimento. Não aceitar sem antes conhecer, é tolice. A crítica, então, está lá no cume da montanha imaginária desenhada pelo filósofo, e jamais poderá ser feita sem o conhecimento, a reflexão, a aceitação.
Não muito parecido com o que vemos por aí…
Com isso vem o racismo, por exemplo, o pré julgamento em geral, o preconceito.
Minha grande melhor amiga da infância é japonesa. Minha mãe conta que quando aprendi a andar, foi pra casa dela que fui, antes de querer ir para qualquer outro lugar, de tanto que a amava e toda sua família oriental. E quantas vezes eu me peguei falando: não gosto de japonês.
Para mim, a Yumi, minha amiga, não era japonesa. Era minha amiga.
E com ela, por diversas vezes, galguei os passos todos definidos por Aristóteles e fui feliz.
Como sou um pouco mais agora, que convivo com Joaquim e para sempre perdi o medo dos anões, gentarada boa, trabalhadora, com uma carranca que é uma moleza, basta uma gentileza e você ganha um amigo.
Simples assim!

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Sobre ruivaah

Apaixonada por livros, fotos, viagens, montanhas, bicicleta, riachos, familia, amigos e animais! Apaixonada pelo sol e pela chuva.
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2 respostas para Joaquim e o universo

  1. Desta vez não escreverei. Deixarei escrever por mim através de Álvaro de Campos. Sem dizer que este texto seu é muito lindo. Há partes brilhantes e perfeitas. Mas vamos com Álvaro de Campos:

    Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
    Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
    E com o desconforto da alma mal-entendendo.
    Ele morrerá e eu morrerei.
    Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
    A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
    Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
    E a língua em que foram escritos os versos.
    Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
    Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
    Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
    Sempre uma coisa defronte da outra,
    Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
    Sempre o impossível tão estúpido como o real,
    Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
    Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

    Come chocolates, pequena;
    Come chocolates!
    Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
    Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
    Come, pequena suja, come!
    Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
    Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
    Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

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