13h: acabou o dia!

Lá em Bananal – terra onde viveram meus ancestrais e onde habita, ainda e ainda por muito tempo, se Deus quiser, boa parte da minha família paterna, inclusive meu próprio pai, que teve a sábia decisão de ir para lá depois da aposentadoria – o tempo custa a passar. Quer dizer, quando estou lá respirando ansiosa e sedenta cada minuto de um final de semana que sempre é mais curto do que aqueles em que estou aqui, o tempo voa! Mas as pessoas que moram por lá, parecem que vivenciam o romance de Garcia Maquez, uma vida de cem anos… Vividos va ga ro sa men te no ritmo das vaquinhas holandesas mestiças maaagras, resquícios de um tempo de glória dos grandes fazendeiros, barões do café, que também dividiram tempo e espaço com meus bisa, trisa e tataravós por lá.

Quase em frente ao rancho do meu pai, moram Seu Roberto e Dona Cila, irmãos, velhinhos e solteiros. Optaram por viver um cuidando do outro e vivem assim há cem anos, em alusão ao texto do nosso nobel da literatura. Ela é uma senhora dona de casa e leva esse lavoro ao pé da letra: fica meses sem sair de casa, raríssimas são suas aparições em público. Mas gosta de receber visitas e de mostrar sua casa de roça impecável, limpíssima e arrumadíssima, cheia de toalhinhas e bibelôs de porcelana, sinal do esmero dispensado em cada detalhe.

Engraçado ela ter comentado um dia com minha mãe que cuidar de casa de roça não é fácil, ainda mais quando 1h da tarde acaba o dia. “A gente levanta cedo, faz broa, varre a casa, arruma a cozinha, faz o almoço, varre o quintal – muita folha aqui na roça, tem que varrer todo dia – e, quando vê, acabou o dia!”. 1h da tarde e puf! Lá se foi o dia de Dona Cila. Aí é só sentar no sofá, agurdar o terço das 18hs, as novelinhas, dormir cedo para acordar cedo e fazer broa, varrer a casa, quintal, etc.

Quando eu olho para o relógio e vejo os ponteiros em posição de 1h da tarde… Respiro fundo e penso que o dia está apenas começando… Ainda nem passei por metade das alegrias ou dos stress, das melancolias típicas de um dia normal das moças da cidade grande. Sem quintal para varrer e um dia com 18 horas que passa tão rápido quanto o da Dona Cila, que só tem 7 horas, das 6hs às 13hs.

Ontem à noite, dia 31 de outubro, às 01h30 da manhã – em um dia em que levantei às 6h – lembrei, pouco antes de fechar os olhos pra sempre no meu sono de cinderela abatida, que é anviersário do meu amigo João. Lamentei tanto não ter escrito para ele no dia, já que ele se lembrou, tão carinhoso, do meu natalício esse ano. Hoje de manhã, novamente, assim que eu acordei, pensei que não poderia deixar de escrever pra ele. Optei em postar este presente.

Voltando ao tempo, lembro que em 2005 escrevi um conto, no dia 31 de outubro, sobre mar, sobre história e sobre o tempo. Nem lembrava direito que ele tinha ficado tão bonitinho. O que eu gostaria de dizer nesta crônica é bem aquilo que senti há dois anos atrás: como estamos distantes dele, como ele escorrega, como passa tão mais acelerado do que nós, como é o senhor de nossas omissões, muito mais do que de nossas ações, como deixamos de fazer as coisas por conta da mania do tempo de andar a nossa frente.

Lembrei de Kant e do que ele nos ensina sobre a feliciade. É como o coelhinho morto colocado à frente dos cães nas corridas de cães… Por mais que os grandalhões corram, se esforcem, lutem uns com os outros para chegar até ele, nunca o alcançarão. A felicidade é o coelho; o coelho é o tempo; o tempo é aquele que não conseguimos alcançar; o tempo é a felicidade.

No entanto, ouso discordar do nosso tristonho filósofo, pois acredito que chegamos a tocá-la, quando, enfim, nos desvencilhamos dos obstáculos e chegamos até ele, o tempo, e somos felizes, por algumas horas, minutos, um momento em família, um café com os amigos, uma cavalgada solitária, um passeio de veleiro, um banho de mar, um sorvete com o namorado, uma esticada na rede, um telefonema com alguém de que temos saudade, um presente que ofertamos, uma prece que lembramos de fazer, um e-mail que escrevemos.

Dona Cila pode terminar seu curto dia, agarrada ao rosário, de olhos fixos na imagem de Nossa Senhora Aparecida que eu trouxe pra ela da Romaria, e sentir a felicidade de ter concluído suas tarefas domésticas em paz, com saúde. Olha pela janela ao entardecer e vê aquele quintal limpinho, as galinhas, os cachorros, o irmão que escolheu ficar com ela sentado no banco lá na porteira.

Desculpem-me, queridos leitores, se me alongo nesse post, mas não posso deixar de me lambuzar quando dedico algumas horas do meu dia para aquilo que mais gosto de fazer. Escrever!

Deixo, ainda, um trecho do presente que dei para o João em 2005, e que agora, mando o mesmo presente embrulhado num novo papel. Espero que gostem.

João, meu querido capitão, feliz aniversário!

Seguiu de volta para a casa da moça e tomado pelo cenário antigo daquela cidade teve uma atitude tão arcaica quanto os paralelepípedos que ladrilhavam a rua estreita em que Luana morava. Atirou uma pedra em uma janela da casa, à sorte, sem saber quem poderia acudir ao ruído. E qual não foi sua surpresa quando, com ajuda dos dois braços, do alto do segundo patamar do sobrado, uma moça morena, de cabelos soltos e presos atrás da orelha, com a testa franzida, abriu a veneziana vítima do ataque.Lá embaixo, Júlio ofegante era pura felicidade, contente demais por ter tido a coragem de antecipar o encontro do outro dia com um sorriso aberto, de orelha a orelha, bradou cauteloso:

– Você está certa sobre o tempo! Não está certo sermos mais rápido que ele!

E a garota, que naquele momento já esboçava um sorriso sonhador, movimentou-se rapidamente mostrando a palma da mão para o rapaz sinalizando um “peraí”.

Júlio não acreditava no ato passional que tinha tomado mas ria orgulhoso de si e com o coração vibrando em esperanças, pernas trêmulas, mãos inquietas, até que, ao ver Luana prostrada na porta, braços cruzados, apoiada com um dos ombros no batente, optou por colocá-las no bolso.

– Qual seu problema com o tempo? Você não disse que “nós somos o tempo”? Zombou Luana com ares de deboche. – Não, eu não sou o tempo. Teimo em andar mais rápido que ele, quero adiantar as horas, quero comprimi-las, alongá-las… E aproximando-se da moça que o olhava de cima pra baixo, pois estava sob o degrau do meio fio, sussurrou:

 – Você é o tempo. Está sempre junto dele.

E aceitando a idéia do rapaz, disse com cara de boa aluna:

– É por isso que nunca tive um déjà vu?

– Deve ser…

Júlio sorriu calmo olhando tranqüilo para os olhos da moça.

Ela, por seu turno, pela primeira vez teve a oportunidade de fitar os olhos dele de perto, e eram cor de mel. Os cabelos alourados não tão curtos caiam um pouco sobre a testa e num movimento quase que involuntário ela ajeitou os fios rebeldes que caiam sobre os olhos de Júlio, gesto delicado que o fez fechar os olhos e pender a cabeça na direção da mão da menina.

– E qual seu problema com o tempo?

– Só quero sentir o prazer de estar junto dele…

Anúncios

Sobre ruivaah

Apaixonada por livros, fotos, viagens, montanhas, bicicleta, riachos, familia, amigos e animais! Apaixonada pelo sol e pela chuva.
Esse post foi publicado em Uncategorized. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s