Pessoas nao sao poesias

Na trajetória de vida do poeta, muitas são as pedradas que tomam na cabeça por acreditarem que tudo e todos bailam ao seu redor no ritmo de seus versos apaixonados. Todo paquera tem vocação para marido, todo silencio tem espaço para um perdão em lagrimas, toda carta terá potencial para vir carregada de revelações, todo passeio ao zoológico será inesquecível, enfim, para o coitado do poeta, qualquer coisa ou pessoa tem grandes, gigantescas possibilidades de virar poesia.
No entanto, na minha experiência de vida pelo menos, venho me decepcionando com as pessoas. Por que ela não tem o mínimo de poesia?? Por que elas não são, nem tentam ser, um verso tímido, uma rima boba… um soneto primário: ABAB ABAB CCD CCD?? Ao contrario, para minha desilusão, elas se materializam mais e mais nesse mundo de concreto e fumaça.
Leiam essa:
A noite era agradável e um vento com ares de polar apenas vinha para nos divertir, brincar com nossos cabelos e deixar ainda mais gostoso o prato mexicano “quente” que escolhi para saborear com a minha mãe, sábado passado, no litoral sul paulista.
De repente, la vem ela, pegando a todos de surpresa! Veio nervosa, discutindo com o vento, uma tempestade daquelas, revirando copos de plástico, baixando os toldos, aproximando as pessoas que riam e se amontoavam ordenadamente. Afinal, estavam todos em férias!
Passada a primeira trovoada seguimos para a sorveteria. Sentada na mesinha muitíssimo concentrada na estupenda bola crocante que escolhi, ouvi um comentário esparso de minha mãe que perguntava: o que e aquilo?
Mais preocupada em não deixar nenhuma gota cremosa escapar não dei atenção e me mantive focada na minha tarefa. Quando o cutucão maternal me fez olhar para o leste e tentar decifrar – sem óculos! – com a minha mãe qual era sua visão.
Era branco e tinha asas. Ora, uma pomba! Não, era grande. As asas estavam imóveis e o bolo branco no meio delas se mexia sem mostrar sua forma. Em posição oficial de míope-astigmata, forcei bem a visa e… uau! Um anjo de verdade… com peruca estilo Luiz XV e rosto pálido, sem cor alguma, celestial!
Curiosas, aproximamo-nos da imagem que nos comovera desde la da sorveteria. Um ator que teve uma idéia genial: vestiu-se com um anjo, sobre o camisolão azul projeto uma luz âmbar, atrás dele uma musica angelical, estatua, só se mexia quando alguém colocava um troco num cisne de porcelana que junto aos seus pés. Ao receber o donativo, o anjo, muito angelicalmente, retirava de uma bolsinha um pedaço bem pequeno de papel e ofertava ao doador. Se fosse criança, ganhava também uma bala.
Poetico, não?
Não! Durante a chuva, que veio mais uma vez e pudemos presenciar, o ator saia do personagem e, bruscamente, levava o radio para um lugar coberto, franzia a testa, praguejava e deixava todos atônitos com a atitude NADA celestial.
O povo – sempre desmemoriado – ao estancar da garoa e presenciar a recolocação do falso anjo, novamente depositava um troco para o safado e recebia sua sorte China in Box e sua jujuba vencida.
Fiquei desiludida, pois, imaginem a cena sob outro roteiro: mesmo sob a tempestade o anjo se mantém firme, disposto a entregar a sorte a qualquer um que ousasse enfrentar a chuva para obter seus conselhos divinos. E mesmo sem espectadores atuando diretamente no teatro, ele ficaria ali, sob a chuva, sob o vento, imóvel, vendo sua maquiagem se derreter, de mãos estendidas, olhar baixo… mas nunca, nunca, nunca abandonado seu personagem!!!
Poxa, não e só porque o moleque encapetado puxa seu nariz que você, automaticamente, perde a compostura e paciência e vira um sopapo na cara do infeliz! Primeira lição do palhaço… não o abandone!!
Mas as pessoas não são poesias. São tão falíveis e frágeis diante do desmoronamento dos sonhos, da arte, da beleza, dos ideais. Curvam-se a mais fraca brisa, ignoram os olhares infantis, crentes, sedentos pela magia do momento encantado. Foi cruel com as crianças… mais ainda com a menina poetisa, moradora de mim.

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Sobre ruivaah

Apaixonada por livros, fotos, viagens, montanhas, bicicleta, riachos, familia, amigos e animais! Apaixonada pelo sol e pela chuva.
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Uma resposta para Pessoas nao sao poesias

  1. patricia disse:

    ruivinha, chorei! amei esse texto! momentos hilários, muita emoção e, sempre…a poesia! ai, que delicia!

    beijos, loira que te comprou um pequeño regalito de cumpleaños

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