À filha que eu quero ter

Nunca fui muito afeta a idéia de ter uma filha mulher. Quero mesmo um moleque para levar para passear de jipe, a cavalo, levar ao estádio, vesti-lo de pijaminhas camuflados, essas coisas. Esse mundo cor-de-rosa não é muito a minha cara. Prefiro o verde exército. Se me perguntam “como vai chamar seu filho?” eu respondo dúzias de nomes lindos de meninos….. Se a pergunta é sobre nome de meninas, respondo sem nenhuma empolgação: Maria.

Teve até um tempo que pensei em um sonoro Maria Augusta…

Augusta foi o nome da minha avó materna, carinhosamente tratada por Dona Nena, vó Nena e tia Nena. Quem era ela?

Era tímida e sempre tinha um sorriso guardado pra mim. Eu era muito pequena quando convivi com ela, morreu quando eu completei 10 anos.

Mas hoje, se fecho os olhos, lembro-me direitinho do andar, do falar, da voz e, principalmente, da textura da sua mão, lisiiiiiinha lisiiiiinha.

O pai de minha vó, Julio (não conheci), desencorajou meu avô Geraldo em seguir com o casamento. Disse que ela era doente e que a vida toda ele teria que cuidar dela. Dito e feito. Como eu era muito nova, não percebia as crises constantes de minha vó, nem sabia direito o que ela tinha. Às vezes, se a memória não me trai, recebíamos a famosa visita de médico, literalmente, quando ela tinha crises de pneumonia. Toda hora Vó Nena estava doente. Eu, criança, não enxergava isso. Como eu disse, ela sempre tinha um sorriso na manga para me mandar, mesmo no hospital, mesmo com os tubinhos no nariz, mesmo brava com alguma coisa, mesmo que a vida não estivesse tão boa, Vó Nena sempre sorria pra mim.

Não me lembro de vê-la gargalhando, era muito tímida e sempre sorria tapando os lábios com a mão. No frio, enrolava-se num cachecol de lã e colocava um gorro daqueles antigos para dormir.

Dona Augusta era crente evangélica da Congregação Cristã do Brasil e por isso usava cabelão e não usava calça. Eu, óbvio, não entendia nada daquilo, e por vezes dizia que a levaria numa loja comprar uma calça jeans e um All Star. Ela sorria, claro, e concordava. Aonde eu poderia levá-la?

Por deliciosos anos Vó Nena morou em frente a minha casa. Eu voltava da escola, mais ou menos na 2ª serie, com oito anos, minha mãe trabalhava e eu ia direto para a casa dela, assistir Vale a Pena Ver de Novo e a Sessão da Tarde. Ao fazer a lição de casa, certa vez, descobri que ela não sabia escrever. Não pensei duas vezes em ensiná-la e, praticamente, alfabetizamo-nos juntas. Até hoje minha mãe guarda um papel qualquer em que ela, num garrancho caprichado, assinou “Augusta Gilsogamo”.

Hoje, especialmente, ao acabar de escrever uma carta para minha outra vó, na qual mencionei que gostaria muito que ela vivesse pra sempre, para que ela sempre pudesse estar lá para eu escrever minhas cartas longuíssimas e manuscritas, pensei muito na minha vó Nena e em como ela sempre vai fazer falta na vida de todo clã Gilsogamo, aos que a conheceram e aos bisnetos que ela nem viu.

A Estela sairia de vez em quando do universo dos cara-zangadas para ver a bisavó que estaria sempre pronta com seu sorriso tímido e honesto. Juninho teria sempre a presença tranqüila de uma bisavó sabia e silenciosa. E Eduardinho, que já nasceu vitorioso pelo histórico das outras gravidezes da mãe, conheceria de perto uma pessoa que viveu em luta contra uma enfermidade indeterminada que nunca a abandonou. E com um sorriso sempre na manga…

E o Pedro seria com certeza uma alegria em suas tardes!

Maria Augusta saberá, com toda certeza, que em suas veiaszinhas cor-de-rosa corre o sangue carinhoso desta vó querida. E levara toda essa história bonita para sempre em seu nome.

E para terminar o texto de hoje, nada como um belíssimo acalento de Vincícius, cantado por Chico Buarque:

É comum a gente sonhar, eu sei
Quando vem o entardecer
Pois eu também dei de sonhar
Um sonho lindo de morrer.
Vejo um berço e nele eu me debruçar
Com o pranto a me correr.
E assim chorando acalentar
O filho que eu quero ter.

Dorme meu pequenininho,
Dorme que a noite já vem.
Teu pai está muito sozinho
De tanto amor que ele tem.

De repente o vejo se transformar
Num menino igual a mim
Que vem correndo me beijar,
Quando eu chegar lá de onde vim.

Um menino sempre a me perguntar
Um porquê que não tem fim.
Um filho a quem só queira bem
E a quem só diga que sim.

Dorme menino levado,
Dorme que a vida já vem.
Teu pai está muito cansado
De tanta dor que ele tem.

Quando a vida enfim me quiser levar
Pelo tanto que me deu
Sentir-lhe a barba me roçar
No derradeiro beijo seu.

E ao sentir também sua mão vedar
Meu olhar dos olhos seus
Ouvir-lhe a voz e me embalar
Num acalanto de adeus…

Dorme meu pai, sem cuidado.
Dorme que ao entardecer
Teu filho sonha acordado
Com o filho que ele quer ter…

 

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Sobre ruivaah

Apaixonada por livros, fotos, viagens, montanhas, bicicleta, riachos, familia, amigos e animais! Apaixonada pelo sol e pela chuva.
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3 respostas para À filha que eu quero ter

  1. Claúdia disse:

    Bom, essa música infelizmente não é do Chico, ele gravou somente. Toquinho musicou esse lindo poema do Vinicius de Moraes

  2. Ruivaah disse:

    Ah, sim, obrigada pela correção. Pior é que eu sabia que as chances desta musica ser do Vinicius eram gigantes, já está no album ARCA DE NOE, onde reinam cancoes da dupla V&T. Mas me deixei levar pela pressa e pelos sites de busca da internete que quase não têm informacoes erradas… Obrigada pela leitura e pela correção imprescindíveis.

  3. projetoperegrino disse:

    ruivinha…simplesmente tudodebom.ORG!

    amei! Maria Augusta vai brincar contente com Ana Luz, Maria Renata e João Emanuel…

    beijos

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