Surreal

Nas minhas andanças, que nem foram tantas, tive a oportunidade de conhecer pessoas fabulosas (penso que nunca fui tão feliz em adjetivar alguém, pois, certas pessoas são realmente mitológicas, incríveis, extraordinárias, seguindo o raciocínio do tio Aurélio).

Uma delas, uma senhora que encontrei lá em São Luiz do Maranhão, estava a postos numa espécie de tribuna, em frente a uma grande e branca construção na São Luiz histórica, com seu guarda-chuva guardando o sol e o calor desumano que faz naquela região em pleno inverno brasileiro.

De longe, vi que ela falava e gestivulava os braços, como se estivesse num palanque, dizendo muitas coisas para muitas pessoas. Munida de minha câmera fotográfica, me aproximei dela e encostei os cotovelos no parepeito da grande varanda que circundava a tal casabranca, me apropriando da mesma visão que ela tinha: uma bonita praça, o palácio do governo à direita, o fórum à esquerda, transeuntes de terno e grava (era dia de semana), turistas à vontade, cachorros sem dono e tudo mais que compunha um cenário que Renoir adoraria colocar numa tela. Ah, claro, o mar à frente.

Ao meu lado ela fez silêncio e, então, puxei conversa. Bom dia! Um rosto preto límpido e brilhante me olhou com desdem, mas como um toque de curiosidade. Sua cor era absoluta, sem mesclas, provavelmente sem uma gota de sangue branco. Em alto contraste com seu vestido e o lenço na cabeça, alvíssimos.

Permaneceu com o olhar fixo em seu público e falava de um filho que não voltou. Onde a Sra. mora? Obtive a primeira resposta. E mais um discurso sobre a partida do filho. Quantos anos ele tinha? Mais uma resposta. E travamos um diálogo em meio aos surtos vigorosos de sua fala cansada, cansada de aguardar o tal filho.

Anotei o nome dela num papel onde anotava tudo da viagem e tirei uma foto. Vou tentar localizá-los para complementar este post.

Mas o cerne desta crônica não é o nome dela ou seu rosto, mas sim seu comportamento diante da realidade. Alheia, seguia com seu discurso para ninguém. Sem esperanças, enxergava e falava com quem queria. Não precisava ser simpática com os turistas chatos, embora se colocasse como uma “atração turística”. Precisava sair de casa e subir ao púlpito fabuloso de seus anseios e bradar para quem se interessasse em ouvir seu lamento amargurado, a falta do filho há 08 anos, tinha 42 e uma deficiência mental.

Fugindo da realidade dos outros, sem, no entanto, podendo se esquivar da sua própria dor, da sua realidade. O quanto da vida dela é realidade e o quanto é sonho? 50-50? 70-30? Até onde a petulância dos seus sonhos invadirá a realidade?

Até quando a petulância dos MEUS sonhos invadirá a realidade?

 

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Sobre ruivaah

Apaixonada por livros, fotos, viagens, montanhas, bicicleta, riachos, familia, amigos e animais! Apaixonada pelo sol e pela chuva.
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Uma resposta para Surreal

  1. Ruiva disse:

    Joana, é o nome dela.

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