Meu coração míope

Coitado desse pobre órgão de vistas enevoadas pela magoa e frieza da literatura inadequada de todas as noites. Neruda, Espanca, Goethe. Reverberam no canto mais escuro e largo da minha alma vozes que vão ao alvo certo do meu coração, míope. Tenta enxergar e ler as linhas divinas, porem, tortas. Tortas… Mas divinas. Não importa. Simplesmente não vê, o pobre. Lastima a imagem turva de todos os dias, inadequada. Alem de míope, lerdo e afobado, combinação que o leva ao desmanche das suas entranhas cortadas, picadas. Coitado. Chora lagrimas que caem e molham e vem não sei de que lugar agitado do topo da minha cabeça, que agora zune, pune meu rosto que tentou se manter sereno em face da tragédia. Onde eu li que “lagrimas por ninguém, só porque é triste o fim. Outro amor se acabou”. Na hora estava de óculos, agora não enxergo, nem mesmo as lembranças. Nem mesmo o vulto sinuoso das minhas recordações alegres ou tristes. Coração míope e tolo e… Sem graça, sem nada. Cérebro idiota que funciona nas piores horas, podia me deixar com ao menos uma única, sozinha, calada, quieta e gelada gota de emoção. Pois caem lagrimas desordenadas, afobadas e apressadas em alagar e piorar minha visão das coisas tortas e corretas. Chuviscos sob o pára-brisa embaçado. Não da pra enxergar… E, por isso, eu choro em tom desesperado, no escuro da estrada repleta de placas foscas e pouco coerentes. Minhas mãos já não alcançam o que vejo, dou um passo pra trás, estou com medo. Recuo e me intimido. Da onde vem a frieza da gramática, da semântica, da semiologia, da morfologia, da sintaxe? Como posso reler o que escrevi e simplesmente corrigir? Apagar, reescrever, trocar, acrescentar. Ah estúpida dádiva de escrever! Sinto-me enrijecida e úmida, como uma tora de madeira largada num canto tropical. A garoa que piora tudo, piora ainda mais minha situação aqui embaixo. E aqui dentro também. Meu coração míope continua sem enxergar o motivo, mas posso tatear o vazio, e também cheirar o frio e sentir o gosto do estar sozinho. Que horas são e que horas eu vou saber se amanheceu ou não? Quando eu vou saber se o pior já passou… Ou se o melhor acabou? Ai de mim não saber de nada disso e apenas jogar no escuro, atirar pedras no meio da noite densa. Alguém se machucou? Tudo bem ai? Desculpe-me! Mas tenho um pobre coração que não enxerga.

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Sobre ruivaah

Apaixonada por livros, fotos, viagens, montanhas, bicicleta, riachos, familia, amigos e animais! Apaixonada pelo sol e pela chuva.
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Uma resposta para Meu coração míope

  1. cotmeister disse:

    Aí! Que medo de tudo isso. Sinto que perto de vc enxergo pouco. O melhor ainda não passou, está por vir, vamos sempre nos corrigir, incertos se estamos certos, no caminho certo, pelos motivos certos… Enxergo através dos seus olhos. Vejo meu mundo quando vc fala sobre o seu mundo. Adoro seus textos, vejo vida nos seus textos.

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