Já ganhou!

Muito embora minha família sempre tenha sido bastante interessada em política – especialmente meus dois avôs, meu pai e meu irmão mais velho – nunca nenhum deles chegou a se aventurar na vida política, leia-se se candidatar a algum cargo eletivo.

 

Eis que meu pai, do alto de uma coragem que até então desconhecia, resolveu encarar o desafio e se candidatou a vereador do município de Bananal (claro!), com o lema “Se você não gosta de rolo, vote no Manolo!”.

 

Manolo é o apelido que os amigos deram ao meu pai ainda nos tempos de moço. Agora, com seu retorno para a cidade natal, nós aqui descobrimos o codinome e, desde então, não mais respondo José Eduardo quando alguém me pergunta de quem sou filha em Bananal. Manolo!

 

Rolo, a primeira parte do slogan, é isso aí que sempre vemos na televisão e jornais e também em nossa experiência de vida quando temos contato com “políticos” de perto. Promessas, enganação, obtenção de vantagens pessoais, desvio de verbas públicas, favores políticos, apoios, compra e venda de votos, voto de cabresto, etc etc etc etc. Vocês sabem!

 

A proposta do Manolo era colocar fim à história do rolo. Sem promessas! Sem ilusões! Ele seria o vereador que simplesmente faria corretamente seu trabalho, o de fiscalizar a administração do prefeito e aprovar leis benéficas para a cidade visando o interesse coletivo, o famoso bem comum. Eu até o presenteei com o livro “Manual do Vereador”, do insigne mestre José Afonso, grande constitucionalista do nosso país, para que ele soubesse direitinho qual seria o seu papel, e com o que, de fato, ele poderia se comprometer com seus eleitores.

 

A campanha estava indo muito bem e o foco continuava definido. Recusou apoios $$$$, manteve-se firme na sua convicção de que era possível vencer a eleição com base em princípios nobres, pelo simples fato de ter a vontade de ser aquilo que deveriam ser todos os vereadores e deputados: meros representantes dos do povo.

 

Meu pai trabalhou duro nesses meses todos, pois sem dinheiro para dar cestas básicas ou outras vantagens, valeu-se apenas de seu carisma, sua honestidade, sua fibra em querer lutar e melhorar a condição da cidade. Gastou muita saliva, gasolina, sola de sapato.

Ontem, ao terminar a apuração dos votos, ligou contente aqui em casa dizendo que teve 170 votos, o que não foi suficiente para se eleger. Ficamos todos tristes, uma tristeza inominada, pois até ele não tinha ficado tão chateado.

 

Ficamos cabisbaixos, angustiados, com a sensação de que por 30 votos apenas Bananal não vai saber, pelos menos nos próximos 4 anos, o que seria ter um vereador diferente daqueles que estão sempre por lá, fazendo a mesma coisa, a cidade com os mesmos problemas que se cristalizaram desde o tempo do império.

 

Entendo o que pode significar uma cesta básica para uma família que não tem o que comer, e por isso fico ainda mais triste em saber que enquanto as pessoas não alargarem seu campos de visão para além das quatro paredes de suas casas, os mesmo serão eleitos sempre.

 

E os que compram, ah esses têm meu sonoro repúdio, aproveitam-se da ingenuidade dos outros para obter sempre mais e mais e mais suas vantagens de toda sorte. E ficamos nós tristes de novo.

 

Mas afora essa história toda de política, que conhecemos bem e sempre nos embrulhará o estômago, tem um personagem que não perdeu nada com essa história.

 

Pela força de vontade, por ter se mantido no trilho certo, pela garra, pelas promessas não prometidas, pela honestidade, pelo caráter, pelo empenho, pelas vantagens não oferecidas, pelos favores não concedidos, pela atitude de querer fazer alguma coisa boa pela sua cidade, pela coragem, por aceitar o desafio, meu pai, Manolo, já ganhou!

 

Já ganhou! Já ganhou! Já ganhou!

 

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Sobre ruivaah

Apaixonada por livros, fotos, viagens, montanhas, bicicleta, riachos, familia, amigos e animais! Apaixonada pelo sol e pela chuva.
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2 respostas para Já ganhou!

  1. Marcela disse:

    Re, querida do meu coração,

    Amei o “Já ganhou”… Lendo este texto confirmo a idéia de que há certas coisas que o dinheiro não pode comprar, no caso do seu pai, a dignidade. Beijão para o Seu Manolo, que agora tem que mostrar que é brasileiro e não desistir nunca dos seus ideais, seja na política ou não…

    Um beijo no seu coração,

    Sua amiga Marcela

  2. Beth Brum disse:

    Re adorei o seu texto,além de ser extremamente afetivo é também uma denúncia da nossa política cheia de ranços,corrupções,subornos etc ,etc.Parabéns e que vc continue escrevendo sempre .É mto bom lê o que essa escritora escreve,logo,logo,estará famosa .Desejo do fundo do meu coração bjs Beth dos Coqueiros

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