Desabafo de Final de Ano

Carrego comigo um pequeno livro de contos de Machado de Assis, comprado num sebo por R$4,00, e sempre que posso abro-o aleatoriamente e leio a história que se apresenta exposta, sedenta de olhos sedentos por boa literatura. Já os li dezenas de vezes sem cansar.

 

Sem hesitar, diria que o melhor de todos é o “Cantiga de Esponsais”, em que ele fala de certo maestro taciturno, velhinho, calado, mas que Machado se referia a ele como um ser extraordinário, especialmente quando estava à frente da Orquestra, regendo, tão apaixonado e vibrante.

 

De resto, no tocar da vida, Romão Pires era, simplesmente, taciturno (termo que aprendi com Machado e amei à primeira vista). E solitário.

 

Machado acreditava no potencial do velho regente e sentia que, se ele quisesse, seria um excelente compositor, apesar de nunca ter composto nada. Depois da morte da mulher, após apenas dois anos de união, o pobre nunca mais compôs nada além da única folha com as notas lançadas que, somadas a um final futuro, resultariam numa cantiga de esponsais. Faltou-lhe inspiração…

 

Ah como Machado fala da inspiração… não da inspiração que existe, mas daquela que não está lá… ou está e não consegue sair.

 

“Como um pássaro que acaba de ser preso, e forceja por transpor as paredes da gaiola, abaixo, acima, impaciente, aterrado, assim batia a inspiração do nosso músico, encerrada nele sem poder sair, sem achar uma porta, nada.”

 

Como vocês sabem, este é um blog pretensioso e, ao ler este conto de Machado, mais uma vez me defronto com o motivo irresistível que me faz escrever e escrever e escrever sem parar. A mania de enxergar nas pessoas algo além delas, enrustido ou, não raro, inexistente.

 

Digo mais: 98% das vezes vejo nelas coisas que realmente elas não são. Deposito confiança e crédito. Empenho amizade e amor sempre baseada em um conceito ideal que trago em minha mente do que aquela pessoa tem guardado dentro dela, encerrado nela sem poder sair.

 

Minha amiga Patrícia sempre me alertou para isso, de que eu atribuo características especiais para as pessoas menos especiais do mundo. E, por uma conseqüência natural, vivo me decepcionando e me frustrando e, às vezes, me machucando.

 

Quando realmente caio em mim e o balãozinho platônico estoura, a tendência é eu ignorar essa pessoa, pois não quero perto de mim ninguém que não seja especial. Nem precisa ser tão especial como eu descrevo nas minhas crônicas encantadas, mas o ser humano deve trazer em si o mínimo de alma, de olhar sincero, de abraços verdadeiramente carinhosos. Alguém que haja com certa naturalidade doce, coisas que eu capto em uma conversa de 30 segundos.

 

De outro lado, aqui de dentro do meu casulo inviolável, ainda me divirto e me inspiro bastante em acreditar que todas as pessoas trazem algo bem especial dentro de si. Crer nisso é o que faz as portas da minha gaiola abrirem e deixarem voar meu pássaro inquieto, impaciente e, claro, atrevido. E tão apaixonado pelas pessoas especiais que circundam meu dia-a-dia.

 

Esta crônica de final de ano (é provável que seja o último, pois a correria típica de final de ano não me deixará outra opção) é em homenagem a todas as pessoas citadas neste blog, que me inspiraram e seguem sempre aguçando meu sexto sentido em perceber o grande potencial que todas elas têm. Acredito em vocês!

 

E por que não também dedicá-la aos que me inspiraram e me decepcionaram? Ah tolice inerente do poetas…

 

E também vai para pessoas que acessam e lêem as minhas crônicas, escritas com todo o amor do mundo, ao menos aquele que cabe num só coração que é o meu.

 

E, finalmente, dedico com todo o amor este texto para duas pessoas ESPECIAIS que ainda não foram citadas aqui, mas que estão presentes na minha vida, nas minhas preces, no meu rol de amigos para sempre, no meu coração: Simone e Marcela.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Sobre ruivaah

Apaixonada por livros, fotos, viagens, montanhas, bicicleta, riachos, familia, amigos e animais! Apaixonada pelo sol e pela chuva.
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3 respostas para Desabafo de Final de Ano

  1. Si disse:

    Sister,
    Você é especial e por isso nossa amizade não poderia ser diferente!!!
    Amo você!!
    Obrigada pela tua amizade, pelo teu carinho e por todos os momentos que ao teu lado.
    Bjs

  2. Marcela disse:

    Re,

    Ainda bem que estamos no melhor lugar que uma pessoa pode estar: no coração de um verdadeiro amigo. E é no seu coração, que é tão grande e generoso, que eu quero sempre ficar…

    Nos damos conta de que uma pessoa é realmente especial e que podemos chamá-la de amiga, quando nos melhores de nossas vidas o que mais queríamos era que essa pessoa estivesse lá, desfrutando de toda aquela alegria junto com a gente e nas horas mais difíceis, quando tudo que vc mais quer é ficar sozinha, você se lembra que se você quiser falar, chorar, o seu amigo vai estar lá de braços abertos a sua espera… pra te salvar… pra te escutar…

    Um beijo e obrigada pelo seu sorriso sincero de todos os dias e por essa “carinha” enferrujada tão cheia de graça e encanto.

    Conhecer vocês foi uma das melhores coisas que a vida me deu de presente e agora já fazem parte da minha vida e estão no meu coração… pra sempre!!!

  3. ieu disse:

    Como tenho certeza que tem pedacinho meu esperramado em alguns ou vários desses poemas, quero te agradecer por todos os momentos, toda a historia e carinho de sempre ruiva. ótimo 2009, 10 ,11 ….. vida toda!

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