Saudades do Mundo que Já Acabou

Vários personagens rondarem meus pensamento nos últimos dias, desde terça-feira. Então, desde já preparo o leitor para ler algo atropelado e urgente!

A primeira, a filósofa Márcia Tiburi, em sua entrevista no programa a que ninguém assiste PROVOCAÇÕES, na TV Cultura. Do pouco que entendi do diálogo entre ela e Abujamra – afinal, difícil de acompanhar o raciocínio dos dois – duas frases foram tatuadas na minha mente: “A vida é urgente” e “O mundo já acabou”.

Depois do choque que me causou a segunda frase e da comoção que me causou a primeira, não consegui mais acompanhar a entrevista. Fiquei pensando nesse mundo que já acabou e em nossa tentativa de trazer as coisas para o JÁ, tratando tudo com urgência, sem qualquer critério. É urgente! É pra ontem! Isso faz até me lembrar de minha amiga Patrícia, que dizia um pouco irritada: Gente, urgente é a fome!

É a vida também, minha amiga, pois o mundo já acabou. Esse mundo, essa bola azul que paira sobre essa tão pequenina galáxia, perdiiida na imensidão do universo. Vejam o que Ethevaldo Siqueira escreveu há quase 30 anos atrás sobre o tema:

(…) é um frágil planeta. Mas, ao mesmo tempo, maravilhoso, não acha? É uma pena que todos os Homens não possam ver sua Terra daqui. E pensar na sinfonia grandiosa que já existe, no mar, nas florestas, nas montanhas, nos campos, numa pequena lagoa, no vôo de um pássaro, no canto da baleia, nas cores de uma borboleta, na interdependência de milhões de espécies de seres microscópicos e gigantes. Na sinfonia da ecosfera, tão complexa quão delicada. Talvez, então, os Homens pudessem descobrir que têm uma Terra somente.”

Esse texto, cujo título é “O DEMÔNIO” – senhoras e senhores adivinhem o porquê?? -, foi lido pela minha professora de redação na faculdade de jornalismo e eu tinha apenas 18 aninhos. A professora comentou à época que apesar de ter sido escrito no início da década de 70, ele era atualíssimo. Repliquei os ensinamentos da professora Eliana aos meus alunos no Projeto EDUCAFRO, durante os quatro anos em que lá lecionei redação. Inclusive a parte do atualíssimo… e hoje, é como se ele estivesse sendo escrito por todos nós, que sentimos sobre as nossas costas o peso que carrega nosso frágil planeta.

Isso é bastante urgente…

O segundo personagem foi o Artur, esse incrível ser humano que cruzou meu caminho há seis anos e entrou de vez na minha vida, há ano e meio atrás, pelas portas da perseverança!! No ano passado, como é possível ver 3 posts atrás, comemoramos o DIA MUNDIAL SEM CARRO – 22 DE SETEMBRO numa bela manifestação organizada pelo movimento BICICLETADA. Saímos pela Paulista, fomos até o Centro Velho, subimos a Augusta… a massa crítica pedalando pelas ruas a provocar os motoristas estressados que não admitiam ter que aguardar o desfile das bicicletas para seguir seus “urgentes” caminhos.

Este ano, porém, devido a uma enfermidade nos joelhos, eu não pude participar da manifestação. Em vez disso fui num outro lugar, onde estaria meu terceiro personagem, do qual falarei logo logo. Artur não se conformou e fez questão de me encontrar no metrô Paraíso, no finalzinho da Av. Paulista, e me levar de carona na bicicletada. Andamos pela 23 de maio, túnel Ayrton Senna, Juscelino, pista local da Marginal, subimos a Rebouças e chegamos à Av. Paulista. Puxa vida… não é pra qualquer amor nem qualquer consciência ecológica carregar a companheira de 63kg no cano da bicicleta… e ainda continuar cantando, vibrando com a energia da manifestação.

Que urgência! 

E o Seu Júlio? 83 anos prestando assistência espiritual para as pessoas. Sentadinho naquela cadeira carregando tanta experiência de vida e bons conselhos para oferecer aos outros. Ah, ele só riu de mim e comigo, disse que eu não tenho problema algum, nem preciso me preocupar em disciplinar meus hábitos espirituais com tanto rigor. Basta seguir os conselhos do velho Júlio, que são: só pensar em coisas boas, só fazer críticas construtivas e não ter ansiedade. Óbvio que eu franzi a testa diante deste último conselho e ele sorriu dizendo sem nenhum pingo de rabugice: todo mundo faz essa cara…

Qual a relação entre os três personagens? É que na avalanche que está levando o mundo embora, tantas e tantas e tantas pessoas maravilhosas que enriquecem o mundo com seus pensamentos, sua força de vontade e sua capacidade de doação vão junto. Junto com o gelo, com as matas, com as ararinhas-azuis, com as baleias nos mares do Japão. Claro que vou (tentar) seguir os conselhos do Seu Júlio e não me preocupar tanto com o futuro e, com isso, sofrer por antecipação, já que o presente ainda me dá a chance de estar ao lado dessas pessoas, ter acesso ao que elas estão dispostas a doar.

O mundo não acabou, óbvio que não, foi uma força de expressão da filósofa no intuito de alertar a população sobre a irreversibilidade da situação em que nos encontramos. O mundo está aí para ser vivido com urgência, e a urgência é o presente, e o presente não é pra ontem, não é urgente. Ele é!

Agora enquanto a chuva cai lá fora, sinto saudades do mundo que está indo embora…

(uma rima para fechar e dedicar este texto aos iluminadíssimos personagens deste post)

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Sobre ruivaah

Apaixonada por livros, fotos, viagens, montanhas, bicicleta, riachos, familia, amigos e animais! Apaixonada pelo sol e pela chuva.
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