Uma moral da história por dia

Sempre quis escrever para crianças, mas ainda acho que não tenho maturidade o suficiente para atingi-las. Leio os livros infantis – os bons, claro – e sempre sou lançada para uma teia de reflexões subliminares que me deixam de queixo caído com a habilidade desses autores incríveis capazes de fazer a criança prestar atenção, emocionar-se, rir, gargalhar, indignar-se…

O primeiro livro infantil que li seriamente foi O Pequeno Príncipe, que, como o próprio autor indica logo na orelha, é, na realidade, para adultos. Uma tentativa vã do autor francês, já que toda a magia de O Pequeno Príncipe resume-se num carneiro dentro da caixa, muito útil para o principezinho, mas que não se pode ver.

Vivo um grande dilema na minha vida pessoal sem solução a curto ou médio prazo. Minha mãe não aprova meu namoro com um rapaz 10 anos mais novo. Essa informação chegou a pesar para mim nos primeiros meses de namoro, quando eu andava de mãos dadas com ele de cabeça baixa, com a plena certeza de que todos ao meu redor sabiam de nossa diferença de idade e me condenavam. Hoje, dois anos depois, eu nem me lembro disso. Mas, para minha mãe amada, esse é um dado muito relevante.

Não só para ela, pois, “todos” enxergam que não nascemos um para o outro e só eu não vejo isso, segundo ela.

Agora me vem a reflexão: estariam todos enxergando o carneiro dentro da caixa e só eu, relutante, a enxergar apenas uma caixa de sapatos sem sentido numa folha de papel?

O que prende a criança é o universo da imaginação, sem dúvida, e para atingil-la é preciso investir a fundo em sua inesgotável capacidade de imaginar, criar, desenvolver. Para isso, os autores esgotam seus recursos linguísticos transportando-a para um mundo surreal em meio a fábulas, cenários absurdos, personagens de outro mundo que vivenciam, na maioria das vezes, dilemas do dia-a-dia. Eu entendo isso como um tempero fabuloso a sua rotina, aos seus conflitos mais vulgares, a sua crise mais infame, ao seu problema mais cotidiano, para que sejam digeridos como devem ser as questões de nossa vida, resultando em aprendizado e amadurecimento.

Quando eu pedi aos céus um amor surreal para minha vida real, os anjos ouviram e disseram “Amém”. Ele veio e vivemos hoje uma vida fabulosa, que, apesar disso, muito nos auxilia a traduzir, interpretar, absorver, digerir, compreener os fatos de nosso cotidiano, debater alternativas e encontrar soluções. Uma moral da história por dia, todos os dias. Eis o carneiro dentro da caixa!

Se opto em escrever a minha história com base nos ensinamentos da riquíssima literatura infantil – e não nos romances estilo “Sabrina” – preciso mesmo enxergar tudo com profundidade, respeitando a complexidade de umas coisas e aceitando a simplicidade de outras. Sou avessa a qualquer superficialidade, por isso meus diálogos são longos, meus relacionamentos são intensos, minhas amizades são sólidas, minha família é meu tesouro e meu amor é o meu norte.

Todos os dias escrevo mentalmente uma história com começo, meio e fim sobre o meu dia e tudo o que aprendi com ele e as pessoas que fizeram parte deste aprendizado comigo. Agora há pouco tive uma longa discussão com minha mãe sobre caixas e carneiros. Fizemos as pazes, mas meu corpo ainda dói, uma angústia pesada demais para minha frágil estrutura. A moral da história é que tanto a paz como o amor, para nos trazer a plenitude, devem andar sempre de mãos dadas.

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Sobre ruivaah

Apaixonada por livros, fotos, viagens, montanhas, bicicleta, riachos, familia, amigos e animais! Apaixonada pelo sol e pela chuva.
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3 respostas para Uma moral da história por dia

  1. patricia disse:

    uau…suspiro…mais reticências…

  2. Memórias disse:

    Ser diferente incomoda. Ser feliz é flutuar em vez de andar, é ver algo especial quando ninguém enxerga.. e só vc vê pq o amor está dentro de vc e ele existe agora, nesse instante.. pq te completa pq te faz feliz.
    Só mais uma coisa, o futuro esse estará sempre no futuro, não vai chegar nunca.
    Bju e viva cada minuto do seu amor

  3. Laura disse:

    Preciso de uma resposta pra agoraaa

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