O ponto cego da questão

Certo dia eu conversava com a Patrícia sobre andar de bicicleta nas ruas da cidade e comentei que, após minhas experiências em ser pedestre e ciclista em São Paulo,  quando estou na minha posiçao de motorista do meu automóvel eu simplesmente compreendo o que é estar lá fora, frágil, vagaroso, aguardando o fluxo dos carros para poder seguir adiante. Quando avisto um ciclista do meu lado direito, portanto, é automático olhar para o lado esquerdo, ver se está vindo um carro para, na ausência de outro automóvel, ir para a outra pista e compartilhar a pista com o ciclista. “E se não tem espaço para você e o ciclista?”, perguntou Patrícia na sequência. Respondi: eu aguardo.

Do mesmo modo que, diante de uma faixa de pedestre eu aguardo o pedestre atravessar. Aguardo porque, depois de três anos saindo do Itaim Paulista de carro e me loUcomovendo até Moema (88km por dia), percebi que não adianta ter pressa em São Paulo. Você pode aguardar, pode acelerar, pode gritar, pode buzinar. O seu tempo de deslocamento será sempre o mesmo, dependendo, é claro, do horário que você decide sair de um lugar para chegar no outro.

Depois que me mudei para a Vila Clementino e passei a ir de bicicleta ou a pé para o trabalho, eu só podia olhar com muita pena para as pessoas dentro dos carros e ônibus nas ruas. Quando participei da primeira bicicletada na Av. Paulista e conheci o termo “autoImóvel”, ri da tragicomédia que é o nosso trânsito.

Ouvi na bicicletada algumas estatísiticas sobre acidentes com ciclistas, inclusive mortes, número alarmante em vista do tímido número de ciclistas que pedalam na cidade. Essa semana morreu um ciclista na Av. Sumaré, atropelado por um ônibus. A mídia deu até bastante enfoque ao caso, pois o ciclista, pelo que ouvi, era um empresário conhecido. (Talvez se fosse o Seu Zé na sua gloriosa Barra-Forte indo cumprir seu ofício de pedreiro não dariam tanta importância. Mas isso é outra demência social que pode ser explorada em outro post.)

O motorista do ônibus argumentou que o ciclista estava no “ponto cego” do retrovisor. Por isso, o empresário terminou sua vida embaixo das rodas desse gigante, espaçoso e problemático meio de transporte.

O ponto cego da questão, na verdade, é que as pessoas ainda acreditam piamente que aquela passadinha no farol amarelo, ou aquela ultrapassagem magnífica, ou aquela fina “de mestre” no ciclista, ou aquela guinada rápida para a outra faixa, ou aqueles 80km/hora numa rua residencial, ou aquela fechada num ônibus, enfim, que todos esses malabarismos automobilísticos são capazes de levá-los aos seus destinos com mais rapidez. Eles não percebem que continuam estagnados. Imóveis. Parados. Plantados no mesmo lugar.

Não há avanço, só retrocesso na educação do trânsito em São Paulo, pois essa população sempre muito apressada, não quer admitir que o tempo passa na mesma velocidade para todos. É democrático e coloca todos sob suas asas. Sob suas inexoráveis asas. O tempo do ciclista é o tempo do motorista. É o tempo do motoboy e o da senhorinha que dirige seu carrinho indo às compras. É o meu tempo quando estou atrasada e o tempo da minha amiga que sai de cada com antecedência. Ele passa, e passa rápido, sendo você gentil ou não no trânsito.

A diferença da sua escolha pode te ajudar a se manter calmo, sereno, aceitando o que não se pode mudar. Para o próximo, especialmente os que estão em condição mais vulnerável, como o pedestre e o ciclista, pode representar a vida.

Não estamos sozinhos nessa cidade. Cuidemos um do outro!

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Sobre ruivaah

Apaixonada por livros, fotos, viagens, montanhas, bicicleta, riachos, familia, amigos e animais! Apaixonada pelo sol e pela chuva.
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Uma resposta para O ponto cego da questão

  1. Dani disse:

    Como sempre adorei seu texto, mas gostei muito da forma imparcial com que relatou o trânsito caótico de São Paulo. Legal você defender os ciclistas, mas também mostrar que existem outras pessoas que sofrem também com essa loucura. Para todas as questões existe milhões de perpectivas.

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