Um desafio e uma despedida (será?)

O ano de 2011, pra mim, foi um ano tenso. Eu estava no olho do furacão de vários acontecimentos decisivos que estavam para mudar minha vida pra sempre. O primeiro grande problema que eu tive foi ter a idéia de passar um ano viajando de bicicleta pela América do Sul e como explicar isso para minha mãe, minha “chefa”, enfim, como dar a notícia de que Renatinha sumiria no mundo por tanto tempo. A ansiedade me consumiu a ponto de adoecer (sou assim mesmo, fico doente quando coloco minha cabeça no travesseiro e meu coração aperta).

Guardando o segredo da super viagem de minha mãe e depois de ter comunicado a chefa inconsolável, parti para uma viagem em meio à gran savana venezuelana, fiz um trekking de 120km em 08 dias e voltei fisicamente muito mal. Agora não era só o coração que apertava por tanta angústia, mas voltei com um inchaço fora do comum e detectei, após uma consulta com um clínico um provável problemas nos rins.

Além de inchada como um balão, meus joelhos doiam tanto, tanto, tanto que eu mal conseguia articulá-los. Os joelhos estavam grossos como as coxas… pareciam duas morangas e eu mal conseguia enxergar minha patela.

A primeira coisa que fiz depois da viagem foi me matricular no Pilates para resolver o problema dos joelhos. Comecei em março. Também comecei a pegar mais intimidade com a bicicleta, afinal, eu viajaria quase um ano montada numa. E me apaixonei pelas bicicletas! Tanto que tenho uma pequena coleção delas, de tantas cores, formas e especificidades. Cheguei a mandar fazer um quadro sob medida!

Depois que contei tudo sobre a viagem para todos, ainda assim não conseguia deitar para dormir e sentir o coração totalmente leve do jeito que eu gosto. Eu precisava estar saudável para a viagem e, para tanto, tinha que investigar o porquê do piripaque que tive em fevereiro.

Já com os joelhos sem dor e cheia de planos e energia para o pedal, peguei o telefone e marquei a consulta com a nefrologista. Quando levei os resultados para ela, a “fofa” apenas disse: faz de novo esses exames, pois não quero acreditar nesse resultado.

Bem “House”, não? Eu também achei. Quando refiz o exame (mais alguns meses depois…) voltei lá com o exame muito bem feito.  E ela concluiu: vou te pedir uma biópsia. Tudo bem ter que tirar dois pedacinho do rins, mas o gelo na espinha veio quando ela perguntou: você faz atividade física? Sim, eu pedalo. Com qual intensidade? Ah, dou uns giros de 50-60km por aí. Pode parar. Quero você sem bicicleta e me volte aqui com a biopsia feita e mais exames.

O castigo da bike me fez perder vários passeios legais, inclusive um Audax de 200km que o Artur acabou fazendo sem mim. Deixei de fazer trilhas na Mantiqueira com a minha Mountain Bike novinha-novinha que eu mesma montei na oficina do Artur. A Clorofila! Já me imaginava pedalando cada vez melhor e chegando mais longe com este tão romântico e fotogênico meio de transporte.

A viagem de bicicleta de vários meses acabou dando lugar para outros planos. Minha “chefa” virou minha sócia e tive que intercalar períodos de pedal com o trabalho. Tudo bem, ainda estava ótimo. Há uns 10 dias atrás criamos o Pedalamerica, com fotos das bicicletas, nosso roteiro, a idéia e tudo mais.

Ao pegar o resultado dos exames decisivos pela internet, antes de falar com a médica, fiz umas pesquisas na Internet sobre o resultado, consultei uns amigos que entendem do assunto e pensei, com toda a esperança, que nada tinha a ver com fazer atividades físicas intensas. Tanto que me inscrevi para o desafio Audax 135km e, inclusive, fiz uns treinos deliciosos com o Artur e amigos.

Dois dias antes do desafio Audax 135km e a um passo de comprar as passagens para o primeiro trecho da viagem de bicicleta volto ao consultório da médica. Ela e seu estilo “House” me contou sobre o meu problema e sentenciou: nada de bicicleta.

Não tive como, naquela fração de segundos em que ela pronunciou o NÃO a minha 20-milion-question “vou poder fazer a viagem de bicicleta”, não ver passar na minha frente todo o filme com cada detalhe da preparação da viagem, da história da compra do quadro, da foto que tirei da minha bicicleta Latina para colocar no site, do meu companheiro que estava ali do meu lado segurando minha mão, do Audax de Campos do Jordão que eu faria em março… e chorei.

Saí do consultório e chorava compulsivamente agarrada ao Artur. E nada me consolava.

De qualquer modo, eu me despedi do ciclismo de performance no desafio 135km. E pedalei os 135km, em pouco menos de 09 horas, o tempo limite para terminar a prova. Fui audaciosa, mas, conservadora, declarei: é o primeiro e o último.

Eu ainda me sentia molhada no balde de água fria que levei no consultório da nefrologista quando comecei a dar as primeiras pedaladas. Era como se eu pedalasse em ovo.

Depois, com a tática do “Poder do Agora” mandei os problemas do futuro para o futuro e joguei a conversa com a médica no baú do passado. Irresponsavelmente, confesso, pedalei pesado, com força, audaciosa mesmo. Gostava de olhar para minhas pernas numa subida e ver os músculos se ativando. E agora, sem dor no joelho, que delícia que é pedalar em pé e vencer uma subida. Na descida aproveitava para sentir o vento no rosto, recompensa merecida.

Gostei de receber a boa energia dos amigos na prova. Por mais que eles lamentavam perder a companheira de pedal, logo já se empolgavam a me oferecer idéias e soluções. Tente isso, tente aquilo. Tente!

O Artur é tão incorrigivelmente dedicado que já me apresentou alternativas como a bicicleta com assistência elétrica, motores para instalar na bicicleta, tudo para que eu possa continuar ao lado dele e dos amigos pedalantes, sem afrontar a explícita e tachativa recomendação médica.

É claro que não mais vou sentir aquela sensação dos quilômetros finais, quando em tom de cumplicidade eu implorava para minhas pernas cochichando insanamente sob elas: por favor, não parem, já estamos chegando… só mais uns metros, por favor, vamos lá, inspira fundo, expira… olha lá o PC final! Já já vocês descansam…

De outro lado, ainda vou conseguir sentir o ventinho no rosto nas descidonas e, o melhor de tudo, poder bater um bom papo com um amigo e com meu amor no maravilhoso embalo dos pedais, curtindo o ambiente, sem pressa, devagar para pedalar sempre! Meu lema nas subidas não será mais “Só no Girinho”, mas sim: só no motorzinho!

Rompi a barreira dos 100km que há muito tempo estava nos meus planos. Me senti corajosa e vibrei com a medalha e o certificado. Tudo isso foi muito bacana.

Depois de tantos acontecimentos eu fiquei enjoada, angustiado, retraída… tentando digerir tudo. Claro que fico muito contente em ter descoberto tudo agora, precocemente poder fazer o tratamento adequado. Feliz por ter olhos para ver e pernas para andar. Isso tudo é muito positivo.

O problema, meus amigos, é que isso consola as pessoas práticas e racionais, não uma sonhadora romântica como eu…

 

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Sobre ruivaah

Apaixonada por livros, fotos, viagens, montanhas, bicicleta, riachos, familia, amigos e animais! Apaixonada pelo sol e pela chuva.
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7 respostas para Um desafio e uma despedida (será?)

  1. ppcroitor disse:

    ruivinha, estou aos prantos…quando vi seu anúncio no FB vendendo a bici, achei que algo poderia andar mal na terra da moça ruiva, mas não achei que ja era tudo isso. enfim, a única coisa que latejou na minha cabeça enquanto eu lia teu relato foi: LIVRAMENTO. agora é só tristeza e dor e decepção. o tempo vai passar e vai dizer. e você vai agradecer. um beijo, te amo. se quiser, podemos empurrar o triciclo da clarice no parque. :0)

  2. Simone Pereira disse:

    Sister, assim como a bicicleta entrou na tua vida e te fez sonhar, tenho certeza que alguma outra opção há de se apresentar para que você continue pondo em prática os os teus sonhos românticos!!
    O importante é que você esteja sonhando com saúde!!
    Te amo! Na saúde ou na doença…
    Bjs

  3. poxa, renata, tou de cara com tua cronica! o q teus rins têm q te impedem de pedalar? consultaste outro nefro? não vaí atrás duma só opinião! qdo vens a porto? tou com saudades! abração

  4. Edna Celeste Vieira Bonassi disse:

    Renata!! Que relato emocionante com uma carga grande de um sentimento que só vc pode mensurar e nós leitores apenas compactuar com sua tristeza, mas ao mesmo tempo desejar que vc vença o maior desafio da vida é chegar em um ponto de equilíbrio com a saúde, a razão e as emoções. Estou do seu lado sempre, sempre. Beijo grande.

  5. Edna Celeste Vieira Bonassi disse:

    Boa viagem!!! Você é muito querida por nós, prima. Beijos

  6. Suely disse:

    Rê , teu relato muito me emociona…principalmente por tê-la visto crescer e conquistado o meu carinho, meu coração…. entretanto, não mais do que a força que te impulsiona a viver tão intensamente aquilo que te faz feliz, … Os práticos e racionais, até gostariam de serem um pouco sonhadores e românticos…porque não dizer: corajosos e atrevidos …rsrsr. Com certeza encontrará refúgio, consolo e felicidade em algo que substitua seu sentimento pela bike, a adrenalina dos percursos e atenda a essa tão linda característica; como: escrever. Parabéns .. escreve muito gostoso, tem sabor de quero mais.. é criativa, sensível e verdadeira.,.. . Conseguirá viver longe dos limites.. Te amo… Tô por aqui. Sabes bem o caminho… Beijocas.

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