As viagens e seus tesouros – Parte II


O magnífico tesouro da menina ruiva e seu companheiro barbudo

Tudo estava em um grande baú, ajeitado preciosamente cada coisa em seu lugar. O baú era pesado, não era tão fácil de carregar. Eu só poderia abri-lo quando finalmente chegasse ao meu destino e, confesso, foi um fardo arrastá-lo até lá. Como nos tesouros dos filmes, até abrir a pesada tampa eu não sabia exatamente o que estava lá dentro. O destino arrumou tudo lá dentro e me presenteou também com a certeza de que eu adoraria….

Quando eu abri me senti em um conto de fadas mesmo… com direito a luzes faiscantes e fiz aquela cara de “uaaaaaaaaaaau” com olhos tão abertos que quase engoliram a arca com tudo dentro. Pude ver as amostras do que aconteceria nos próximos dias, em pequenas porções, e fui abrindo um a um os presentes, todos, que estavam reservados para mim e meu companheiro Artur em nossa primeira viagem juntos de bicicleta.

O primeiro deles foi a oportunidade de viajar pelas profundezas da Patagônia. E isso nada tem a ver com geleiras, trekkings de longos dias, travessias, expedições… mas tem a ver com viver o cotidiano de uma família patagônica que abre sua casa para receber viajantes de bicicleta.

Estou falando de abrir a própria casa e não o quintal ou um quartinho nos fundos. Compartilhávamos das refeições, do dia-a-dia, das danças e canções ao violão após o jantar, dos vizinhos e até do “open-house” da vizinha com direito a almoço típico da região… de conhecer seus filhos, seus animas de estimação, seus problemas, seus planos, ajudar na mudança, na limpeza. Foram 5 dias na casa dos Pelados (carecas, em espanhol). O pai é careca, o filho raspou o cabelo por conta dos piolhos e a mãe em solidariedade raspou também. Que vontade de raspar o meu…. Acabei raspando somente o do Artur!

Poderia escrever um livro sobre essa experiência, sobre como foi conhecer as “profundidades” da Patagônia nesses dias de contato intenso com uma família que mora a 9km da movimentada e famosa cidade de Bariloche, na Patagônia Argentina. A mãe se chamava Felicitas e não poderia ter outro nome, assim como o pequeno Leon e todo sua bravura leonina… e doçura! Gosto tanto de você, Leãozinho… Aprendi tanto em tão pouco tempo. E esse foi apenas um dos tesouros.

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O outro foi o caminho e a indescritível sensação de vencer distâncias pedalando. Amarrar tudo o que você REALMENTE precisa e, ainda, a pré experiência de identificar aquilo que você realmente precisa. O que levar? O que carregar? Com isso já se cresce, já se amadurece. Um passo adiante do pequeno pensamento que sempre nos cerca de que precisamos de tudo isso que vivemos carregando em nossas vidas cotidianas. Que tesouro maior poderíamos ganhar do que essa constatação?

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E os encontros no caminho? Outro iguais a você que saem de suas casa carregando suas tralhas e até a família toda! Conheci o Mathias e a Andrea, alemães que cruzaram o oceano super carregados, levando violão e tudo o que eles consideram importantes em uma viagem de 6 – 8 meses. Pedalavam de devagar e quase não falavam espanhol. E pra que se preocupar com detalhes? Bastava encontrar outro que também não falava, mas tinha o principal para estabelecer a comunicação: FORÇA DE VONTADE!

Aprendi muito isso com os europeus que se aventuram em nosso continente e também vendo o Artur conversando com um francês em inglês quando nenhum dos dois sabiam muito bem o idioma… Que preço isso teria? Abre-se um mapa e ao final todos falam a mesma língua!

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Os caminhos nem sempre são poéticos e podem ser duros, cansativos e doloridos. O frio ou o calor, as condições das estradas, as subidas e as descidas. Sempre gostei disso, de passar pelas provações das viagens, de às vezes discutir ou dizer impropérios para a pessoa que você ama ao seu lado que está fazendo tudo por você e, em alguns minutos, você se esquece e fuzila o companheiro de viagem em um surto de raiva. Mas, no balanço geral, perceber que isso é o que fortalece os relacionamentos, nos percebemos iguais, lado a lado, juntos, unidos e grudados e celebramos isso com uma cerveja gelada, mesmo com o frio patagônico, ao chegar ao destino sãos e salvos.

Cansados, mas presenteados por esse que é um dos principais tesouros de qualquer viagem: resgate e fortalecimento da cumplicidade.

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E de repente você para em uma loja de bicicletas, ao chegar ao seu destino, encontra um ser humano (alemão!) que te presenteia com peças para reposição para utilizar na viagem em uma emergência, não cobra pelo serviço… tudo porque você está viajando de bicicleta! E, para retribuir, convidamos o cabra para um jantar, ele aceita sob a condição de que ELE cozinha e prepara lá no hostel um prato ma-ra-vi-lho-so típico alemão e a gente até agora busca um modo de agradecer ao Ingo por TUDO! Danke, Ingo!!! Ingo e sua colega de trabalho Marisol que alegra tudo com sua simpatia e alegria de viver! Dois lindos tesouros!

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Viajar leve, pesado, com tralhas, sem tralhas, com violão, com fogão, com ursinho… com a família? Sim, por que não? Os filhos fazem parte da família e qual motivo para deixá-los em casa? Isso nos ensinou o casal Wikke e Axel, alemães que já fizeram outras viagens com as pequenas Selma (de quase 2 anos) e Smilla (de 5 anos) e agora desbravam o continente sul-americano.

O presente foi mais do que encontrá-los, mas também indicar a casa dos Pelados para eles e, ao retornarmos a Bariloche, encontrar a família toda lá e passar dois dias fincados no meio de uma família alemã e outra argentina, experimentando a beleza desse encontro, dessa mistura de costumes, línguas, tons de voz. Mas algo era comum: os risos, os olhares de amizade, de eterna gratidão por toda aquela experiência.

Quando os alemães partiram e novamente ficamos somente nós, entre a “família”, era como dizer adeus a amigos tão próximos e fomos mesmo tomados por um sentimento tão esquisito de não saber quando nos veremos de novo…. e de tristeza de verdade. O tesouro vem da alegria e também do aperto no coração quando a alegria vai embora… aprendemos e crescemos com os dois.

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Quando tudo se acalmou na casa do Pelados, enfim a gata Silvestre, que estava prenha, pode ter tranquilidade para parir. Meus amigos sabem da relação hostil que tenho com os gatos. Isso porque sou alérgica e eles teimam em me rodear o tempo todo. Não foi diferente com a Silvestre, que entendeu que o meu saco de dormir era seu ninho e lá aguentou firme as últimas horas de gestação.

Ao perceber a movimentação de seu ventre, e por ela ser primípara (será que também posso usar esse termo para gatos? ou seria só para vacas?), tentei tranquilizá-la e acomodá-la em um lugar calma para receber os bebês. Tinha chegado a hora! A Feli (a dona da casa) também se posicionou e, de repente, fomos presenteados com o primeiro bebê gato, ainda se mexendo em sua bolsa nojenta e tão linda, aflito para rasgar a fina pele e, pela primeira vez… miaaau!

Escrevendo isso agora e lembrando da carinha do filhote mais velho, o mais velho, fico emocionada. Passei as 3 horas do parte ao lado da Silvestre até o quinto e último gatinho sair. No quarta filhote até ajudei a Silvestre… ele parou na metade e não tive receio de meter a mão e puxar. Silvestre agradeceu num suspiro.

Toda aquela cena, o cuidado que a Feli tinha com o gato, ver a natureza animal se revelando, o passo-a-passo do pós parto que Silvestre seguiu sem nunca ter passado por aqui….a natureza… a natureza… divina ou lógica ou científica ou matemática, que seja, é linda e me doeu tanto saber que tão pouco se faz para preservar e respeitar essa beleza.

O momento mágico acabou quanto Silvestre, ainda suja, úmida e fedidinha com aquele cheiro de parto agarrou um dos filhotes pelo cangote e foi direto para meu saco de dormir…

Vida longa a Silvestre e seus cinco filhotes! Olha aqui a carinha do mais velho e me diga se não é um tesouro??

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Quando foi chegando o dia da partida, eu voltaria para o Brasil e o Artur continuaria a viagem, como continuou (está lá ainda!). Precisava de lanches para a longa viagem até o Brasil, com a esperar no aeroporto e também para encarar o mundo não-vegetariano lá fora. O Pelado foi para sua padaria caseiro e produziu UM PÃO, o pão que eu levaria.

E a Feli? Ao saber que eu levaria para o Brasil uma de suas obras de arte, um instrumento africano de percussão chamado UDU, feito em carâmica, tratou de fazer uma bolsa personalizada para a viagem, para que a peça não quebrasse. Passou um dia todo preparando em feltro a bola, com um esmero, com um carinho, com uma alegria… tudo isso veio embrulhado dentro do UDO. Qual o valor?

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Artur sempre me presenteia com seus mimos, carinhos, cuidados o tempo todo, em todas as nossas viagens. Eu sou uma chatinha (só de vez em quanto) e ele suporta e tolera tudo com tanto amor. O carinho com que ele planeja tudo, anota os dias, os roteiros, pesquisa e mostra tudo pra mim antes, me explica, indica, facilita.. ai como os dias são difíceis sem ele… Cuidadoso ele afasta os males e fortifica a confiança que tenho nele. E com isso ele me presenteia e me enche de tesouros todos os dias…

E, claro, também troca o meu pneu!

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Voltei dessa experiência olhando para o mundo de um modo tão diferente. Realmente me transformei. Aprendi que as coisas são possíveis e que o conceito de “louco” da letra da música Balada do Louco, de Rita Lee  e Arnaldo Baptista, é mais próximo do certo: mais louco é quem me diz e não é feliz!

O grande baú foi aberto e seus tesouros pularam para a minha vida. Sorte que a porta estava aberta e todos puderam entrar e ocupar seus lugares em minhas memórias, na minha história e cada um, com sua contribuição, me ajuda todos os dias a encarar a realidade com mais alegria, amor e fé!

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Sobre ruivaah

Apaixonada por livros, fotos, viagens, montanhas, bicicleta, riachos, familia, amigos e animais! Apaixonada pelo sol e pela chuva.
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2 respostas para As viagens e seus tesouros – Parte II

  1. Cassia disse:

    Mergulhando de cabeça na sua experiência, com um sorriso meio que de lado, meio que contido, mas com o coração “abismado” de tanta alegria por você, por vocês todos… seus caminhos me fascinam e meus olhos não param de chorar… QUE LEVEZA eu sinto!

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