Um prato de trigo para um punk triste

Ele tinha os olhos assustados, como os do cão abandonado na beira da estrada, sem saber de onde veio, pra onde vai, nem no que pensar ao certo sobre a iminência da morte, passando rapidamente, carro após carro, ali na sua frente. Arredio, invisível, ele se comportava para que o mundo não o enxergasse. Se encobria por trás de trapos de roupas que até eram cheirosas: um esmero vindo de onde?

Diante das taças de cristal sobre a mesa posta, os olhos verdes brilharam e recordaram um lugar distante, pessoas distantes, alhures. Um sorriso pequeno, de labios apertados e comprimidos, surgiu. E ele olhou pra ela cabisbaixo, mas, com amor. Vindo de onde?

Ela segurou suas mãos e suas pernas, traidoras, deram o primeiro passo. Irreversível. Se ela dizia que amava seus olhos, ele não aceitava, porque eram feios. E ela desenhava, recitava, dançava, tentava explicar, não são belos, mas me atingem no alvo, flecha após flecha, rapidamente, ali na sua frente. A iminência da morte.

Seu semblante era quase sempre triste, pensativo, sofredor, afundado numa peleja que só ele conhecia e compreendia. Ou não. E no meio da turbulência de um dia ruim qualquer, no desespero das soluções que se esvaem, diante dos problemas que vão surgindo, um após outro, rapidamente, ali na sua frente, ele remexido a olhar para todos os lados e principalmente para baixo, de repente, encontra os olhos dela. Calma… e os olhos verdes voltam a brilhar e a se regenerar e a enxergar e a se iluminar para iluminá-la, um raio de luz certeiro naquela alma feminina que o acalenta.

Ele até que sorria bastante, havia uma simpatia natural que acompanhava sempre o timbre da sua voz, até nos dias ruins, e o seu sorriso pacífico. Por trás da armadura que ele teceu com tanto zelo desde pequeno, por trás de sua capa de herói punk, havia sim um homem com o desejo ordinário de dar e receber de volta o toque sagrado e apaixonado do amor, o toque cúmplice que tudo fala, que tanto cala quando é para ser silencioso, ofegante, intenso e revelador de sua força.

Ela não lembrava da dimensão da dor, tão indolor era sua vida terraplanada. E ao fechar os olhos, ou ao abri-los, ao caminhar pelas ruas em que costumava encontrá-lo, busca se deparar novamente com aquele olhar assustado que parecia encontrar abrigo ali na sua frente, ao alcance do seu abraço, sob as asas de seu calor protetor. Talvez era só ilusão. Talvez foi mesmo isso.

Aqueles olhos que tantas vezes olharam um grito de socorro, assustados, buscando os olhos e lábios dela, olhos que querem falar e ouvir, que cheiram no ar, nas ruas, nas filas dos bancos, nos bancos dos parques, nos parques sem bancos, nos cantos de tudo, de todas, por todos os lados.

Ele era bonito, percebe-se depois que se tiram os trapos e a barba grisalha, mas, triste, desconfiado do que a vida podia lhe oferecer de bom. Sem espaço certo e grande reservado para as alegrias dos sonhos, sonhos para agora, para amanhã, para 2015, para 9 meses, para 24 horas, para os próximos 15 minutos de uma manhã fria e preguiçosa qualquer.

Ela circundava seu mundo de longe, de perto, de dentro, por cima, por baixo, e olhava fundo nos seus olhos e tentava fazê-lo sentir de verdade que seria possível. Ele sentia amor, mas não sentia compreensão sobre as escolhas que ele havia feito e que não abandonaria. Ela só amava, não pensava, não pensava…

E de olhos também tristes e assustados, hoje ela também chora a lagrima descontrolada que cai do olho esquerdo dele, involuntária, por tristeza mesmo guardada. E lembra do seus raros momentos de leveza, de gargalhadas, em que ele feito criança ria… ria…

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Sobre ruivaah

Apaixonada por livros, fotos, viagens, montanhas, bicicleta, riachos, familia, amigos e animais! Apaixonada pelo sol e pela chuva.
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Uma resposta para Um prato de trigo para um punk triste

  1. Tiago Troglio Correa disse:

    Boa Crônica, Parabéns

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