A dica de ouro de Minas

Meu último post narra um trágico fato que marcou o início desta minha viagem. Apesar de estar inconsolável, meio boba, triste demais, vagando desorientada de um lado para outro nas ruas, busquei tentar não prejudicar este roteiro que há muito tempo tinha o sonho de fazer: cidades históricas de Minas Gerais.

Escolhi a companhia de meus pais, pois, além de estar com saudades de viajar só com eles, sei que eles amam esse estilo de viagem que envolve bater perna, conhecer cidades a pé, devagar, de cabo a rabo e estarem sempre dispostos e sorridentes a encarar os roteiros  malucos que eu desenho.

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O que marcou essa minha viagem foi a não vontade de fazer nada e, mesmo assim, ter feito tudo e ter sido presenteada por todas essas experiências com sensações e sentimentos que guardarei para sempre em minhas recordações.

De forma geral, todo o conjunto arquitetônico colonial das cidades que escolhi para conhecer, são elas, Tiradentes, São João Del Rey, Congonhas, Ouro Preto e Mariana, já compõe uma imagem gostosdimais de lembrar. Dá um aconchego, como se fosse possível sentir o cheirinho das ruas, das janelas, das lojinhas de artesanato, dos restaurantes…

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Especificamente, tive algumas experiências que gostaria de compartilhar e recomendar que se permitam fazer, pois valem à pena!

Na Matriz de Santo Antônio, em Tiradentes, fui a um concerto de órgão (um instrumento maravilhoso do século VXIII cuja caixa foi talhada por Aleijadinho comandado pela organista Elisa Freixo) que, apesar do repertório erudito, entrou em minha alma como uma oração ecumenica ou, até mesmo, pagã. Digo isso pois meu amigo Davi, que nos deixou no início da minha viagem, era ateu e desde que recebi a notícia quis fazer uma oração por ele. Mas, como ele era ateu, não achei que teria efeito. Então, foi nessa ocasião, resultado da união de tantos elementos especiais, que aproveitei para elevar meus pensamentos a memória do meu amigo e, espiritualmente, enviar a ele uma mensagem de que ficaremos bem, apesar do vazio gigante, mas que ele não se preocupe! Vamos ficar bem!

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Para ajudar também a curar a tristeza (apesar de o Davi ter sido um vegano radical…hehehe…piada interna!), abandonei por uns dias meus ideais veganos e caí de boca num dosdileite maravilhoso, que há 50 anos é produzido em Tiradentes pelo Seu Chico. Não teve como resistir aos canudinhos fresquinhos e crocantes recheados de dosdileite… comi. Pequei. Comi. Comi de novo. E mais uma vez. Todo dia eu passava pela vendinha do Chico Doceiro e devorava um par de canudinhos. Caramba… que delícia!

Voltando ao veganismo, apesar de toda culinária mineira ser cultivada em volta de um porco morto, não achei tão difícil me virar nos restaurantes. Com a tradicional boa vontade e simpatia dos mineiros, me arranjei bem com a mais simples das refeições, ou seja, arroz + feijão de caroço (limpo, sem bacon) + couve + aipim. Comi de olhos fechados, como meu avô fazia, saboreando as panelas de ferro e do fogão à lenha.

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Aleijadinho é um ícone da arte barroca e rococó no Brasil colonial e estar diante de suas obras arrepia mesmo, não tem jeito. Ele é digno de todas as homenagens pela perfeição e “tiradas” que fez em algumas de suas obras, algumas acompanhada de seu amigo Mestre Ataíde. Por isso, estar em Congonhas diante dos 12 profetas, esculpidos em pedra sabã0, e ver toda a via sacra esculpida em madeira foi uma experiência de encher os olhos, alma e coração. Que orgulho de ver um brasileiro mestiço deixando o mundo de boca aberta!

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A estrada de Congonhas até Ouro Preto é linda! Estamos nos limites da Estrada Real e eu não vejo a hora de chegar abril/2015 para eu fazer toda essa estrada pedalando com o meu amor Daniel!

Ouro Preto está a 1000m e pouco do nível do mar e está cravada numa serra. Diferente de Bananal, por exemplo, que está em um vale, aqui é uma serra. Ou você sobe, ou você desce. São ladeiras super íngremes, com o calçamento chamado de pé-de-moleque (ou pede moleque, como contam as estórias). Estar aqui já é sensacional!

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O mais legal aqui de Ouro Preto são as igrejas, verdadeiras obras de arte. São 13 igrejas e escolhemos conhecer profundamente 03 delas, em vez de todas superficialmente. Foi a melhor escolha que poderíamos ter feito. Não tem preço sentar naqueles bancos, ouvir os guias falando sobre todos os milhares de detalhes de todas as milhares de obras… não nos cansamos de ouvir. É o melhor de Ouro Preto, sem dúvida!

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Na Igreja de São Francisco de Assis, em estilo rococó, o teto pintado pelo Mestre Ataíde, ao estilo do teto da capela sistina, é a jóia que se detaca. E lá no altar principal Aleijadinho desenha os santos franciscanos com os traços dos inconfidentes… E no teto, Mestre Ataíde desenha um anjo pardo, com os traços de Aleijadinho… e ate tem uma pintura da Santa Ceia com porco no menu… é uma Santa Ceia mineira! Fanfarrões!!

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Também fomos visitar a Igreja Santa Efigênia, construída pelos escravos do Chico Rei, uma igreja que os negros podiam frequentar. No altar principal, referências iconográficas do Candomblé e africanas. Imagens de São Benedito e Santa Efigênia, ambos negros para interceder pelos negros.

A Matriz de Nossa Senhora do Pilar é o símbolo máximo do barroco em Ouro Preto. Forrada de ouro, é a segunda igreja que mais tem ouro no Brasil (só perde para uma igreja de Salvador). Simples por fora e maravilhosa por dentro!

O período colonial me encanta pela beleza, o barroco é suntuoso e convida. Mas me entristece saber das mazelas da época.

Em Mariana conhecemos o conjunto arquitetônico colonial considerado o mais belo entre os belos, queridinho até do povo da Louvre. Duas igrejas construídas uma ao lado da outra e a Casa de Câmara. Ao centro, o Pelourinho, onde escravos recebiam chibatadas em público para servir de exemplo. Uma tristeza sem tamanho saber a quanto suor, sangue e morte foram erguidas essas obras tão exuberantes. Por isso, sempre paira um misto de sentimentos em lugares assim.

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Viajamos de trem, porque é lúdico, leve e temos uma vista vagarosa e panorâmica das paisagens. Fomos até São João del Rey, saindo de Tiradentes, e lá conhecemos o centro histórico e ouvimos causos. Também fomos de Ouro Preto até Mariana e a todo tempo avistamos o Pico do Itacolomi, formação rochosa com 1772m. Sou apaixonada por formações rochosas que tem poderes hipnóticos para mim. Sigo com o olhar o tempo todo, querendo sempre estar lá em cima…

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Também adoro doces da infância e este pirulito que vendia no trem era da infância dos meus pais… não deu pra resistir!!

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Vale uma menção honrosa à banda musical que nos recebeu lá em Mariana, nos abraçando neste clima perfeito de cidade do interior: paz, tranquilidade, atividades culturais tradicionais, sensação de deixar o tempo solto… mesmo com o tempo “apertado” para conhecer as igrejas em Ouro Preto que fecham às 17h e não abrem para visitação às segundas-feiras, deixamos o relógio de lado e sentamos na praça para ouvir a banda. Inesquecivel!

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Os mineiros que passaram por nossa viagem foram todos simpáticos, eloquentes, inteligentes, esforçados, simples e bonitos. Os guias, o taxista, a moça da cafeteria, a arrumadeira do hotel, a organista, o garçom, os artistas de rua, o motorista do ônibus, o cobrador, o agente da estação ferroviária… enfim, povo delicioso!!

Assim, a dica de ouro para qualquer um que venha visitar Minas é disponibilizar tempo e disposição para que as atrações se descortinem, se revelem para você. Não deixe passar batido a oportunidade de conversar com os locais, eles tem muito a ensinar. Humildemente, curve-se à sabedoria daqueles que respiram e vivem o lugar.

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Sobre ruivaah

Apaixonada por livros, fotos, viagens, montanhas, bicicleta, riachos, familia, amigos e animais! Apaixonada pelo sol e pela chuva.
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2 respostas para A dica de ouro de Minas

  1. Eliana Alves disse:

    Estive em Tiradentes e São João Del Rey em julho, fiquei tão encantada como você…tudo lindo,perfeito e inesquecível…e aquelas montanhas de Tiradentes ficaram em minha memória para sempre!Beijos em você e na sua querida Mãe!!!

  2. Simone disse:

    Que delícia de viagem! E com os teus pais, priceless!

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